sábado, 3 de setembro de 2016

PIETÀ: o olhar humano sobre a divindade

BUONARROTTI, Michelangelo. Pietà. 1499. Roma. Basílica de São Pedro. Escultura em mármore.
Se existe um período da História da humanidade que me fascina enquanto historiador, sem dúvidas é o momento transitório da Idade Média para a Moderna. O termo transição explicita com competência as profundas mudanças nas estruturas econômicas, políticas, sociais e culturais desse período na Europa. E é justamente buscando uma espécie de regozijo pessoal, que trago para esta postagem uma das mais belas expressões do movimento renascentista Europeu, a Pietà.
Feita em mármore, a nobre escultura do florentino Michelangelo Buonarrotti expressa com magnitude o olhar do ser humano inerente a uma época, a renascença. Feitas as primeiras considerações, vamos analisar esta espetacular obra prima da arte sacra, feita por um “homem” de maneira “divina”.
Para início de conversa podemos dizer que Pietà (palavra italiana que significa Piedade) é uma representação, ou melhor, a materialização do imaginário bíblico que nos remete a cena em que Maria, a mãe de Jesus Cristo, está com  seu filho no colo, desfalecido, morto, depois da dolorosa crucifixão. Mas você pode está se perguntando, qual a relação entre o Renascimento e essa obra, uma vez que o teocentrismo é um aspecto predominante da Idade Média e a cena retratada é composta de personagens bíblicos? Então vamos a resposta, pois de fato as personagens esculpidas e a cena em si são bíblicas, mas são representados única e exclusivamente como seres humanos. Não há nada na cena que nos remeta a ideia de sagrado, de divindade, como por exemplo, uma auréola, um anjo, elementos típicos das artes medievais, dessa forma, o Antropocentrismo é predominante nas personagens e cena criada.
Salta aos olhos a valorização dos aspectos humanos e de tudo o que reveste a humanidade de Jesus e Maria na obra. Repare bem nos detalhes, o corpo de Jesus é minuciosamente esculpido (músculos, ossos como costelas, tornozelos e joelhos, a feição desfalecida, no entanto serena que não nos remete aos momentos doloridos sofridos na Paixão – inspiração no padrão corporal greco romano). Observe bem a Maria, os detalhes da sua veste foram minuciosamente esculpidos dando um realismo fenomenal a obra, outro aspecto é a feição da mãe de Jesus, que transmite um misto de tristeza e serenidade e não de desespero como muitos fiéis imaginam que tenha ocorrido naquele momento. A expressão desesperada não caberia aqui, a final de contas, Maria é uma das Colunas da Fé Católica, Maria é sinônimo de mulher de coração forte e temente, porém confiante a Deus e isto fora demonstrado no momento em que o anjo revela a ela a concepção de Jesus e agora depois do Cristo morto.
Além de todo caráter Antropocêntrico podemos destacar o valor do individualismo (outra característica renascentista) na obra, a ideia de que a mesma não pretende ser fiel ao relato bíblico, mas expressa a visão do autor sobre o episódio e mais do que isso, podemos afirmar que Michelangelo busca um reconhecimento pessoal ao deixar impregnado na obra sua técnica apuradíssima de trabalho, seu estilo de esculpir e faz questão de eternizar a autoria da Pietà, assinando-a.
Tudo que explicitamos aqui, seria o suficiente para classificarmos Michelangelo como gênio, como aquele que estava muito além do seu tempo, mas não bastasse o que já observamos, há um último aspecto que eu gostaria de destacar, que é a desproporcionalidade do corpo de Jesus em relação ao de Maria, sua mãe. Perceba que embora a cena seja constituída de dois personagens, nós tendemos constantemente a observar os detalhes de cada um deles de maneira separada, ora se contempla o Cristo, ora se contempla Maria, a sua mãe, e isso nos faz em muitos momentos cometer o erro de não se observar o todo. Sendo assim, deixemos a insensibilidade do olhar de lado e passemos a perceber que o corpo de Cristo está em tamanho menor revelando-os a ideia de que Michelangelo procurou destacar a Maria e sua grandiosidade, isso fica evidente também por meio do título dado a escultura, a Pietà.

Depois desta análise, gostaria de convidar a você para um olhar mais detalhado e por diversos ângulos da Pietà:


“Em cada bloco de mármore vejo uma estátua; vejo-a tão claramente como se estivesse na minha frente, moldada e perfeita na pose e no efeito. Tenho apenas de desbastar as paredes brutas que aprisionam a adorável aparição para revelá-la a outros olhos como os meus já a vêem.” (Michelangelo Buonarrotti)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Revolução Bolchevique: varrendo as velhas estruturas

Cartaz produzido pelo cartunista russo Viktor Nikolaevich Denisov, em 1920

Em outubro de 1917, a Rússia estava mergulhada em uma profunda crise que perpassava pelas estruturas política, econômica, social e cultural. A velha estrutura alicerçada no Czarismo tinha “caído por terra” desde a Revolução Menchevique em fevereiro daquele mesmo ano. De Nicolau II, último dos czares, para Alexander Kerenski, líder revolucionário Menchevique que assumiu o poder provisoriamente, ocorreram algumas significativas mudanças no âmbito político, dentre elas, a anistia aos exilados. O que parecia uma medida de modernização e abertura política se transformaria em um enorme problema para o governo de Kerenski, pois entre os exilados estava Vladimir Illitch Ulianov, mais conhecido como Lenin.
Líder do partido Bolchevique, profundo conhecedor da doutrina marxista, Lenin pregava uma revolução comunista radical. Segundo ele os problemas do povo russo só seriam resolvidos se o atual governo fosse derrubado, o comunismo implantado e se as forças militares russas fossem retiradas da Primeira Guerra Mundial. Sendo assim, o líder Bolchevique encontrou na sofrida população, sofrimento este oriundo em inúmeras questões, dentre elas a penúria da participação na Primeira Guerra Mundial e na insatisfação com as moderadas mudanças e reformas feitas pelo governo Menchevique, um terreno fértil para um discurso ainda mais radicalizado e/ou exaltado. Inflamados pelas Teses de Abril, que tinha como lema “Paz, Terra e Pão”, o povo russo encontrara a motivação necessária para um novo levante, uma nova revolução, esta sim, na visão dos bolcheviques, capaz de acabar com a opressão capitalista imposta ao povo russo, com o fim da exploração sobre o proletariado e os camponeses, o término das injustiças latifundiárias e de um modo geral do abismo social existente.
Ao assumir o poder da Rússia cabia a Lenin colocar em prática todo seu discurso e assim começou a ser feito, o socialismo começou a ser implantado por meio do confisco e estatização das terras dos grandes latifundiários, dos bancos, da marinha mercante, da indústria, etc. É justamente nesta fase de implementação do socialismo na Rússia que a imagem acima, selecionada para esta postagem, tem relação. Produzida em 1920, pelo cartunista russo Viktor Nikolaevich Denisov (1893-1946), a imagem demonstra bem seu posicionamento favorável ao líder e à política Bolchevique. Sendo assim, vamos à leitura da respectiva cena produzida.
Primeiro aspecto a ser observado é o fato de que Lenin está sobre o globo terrestre (mundo) com uma grande vassoura (ideologia comunista) que varre toda a velha estrutura política, econômica, social e cultural que alicerçava o sistema Czarista e o próprio capitalismo russo. O fato de está acima do globo e representado em tamanho maior que os demais da cena, pode conotar a ideia de superioridade, de liderança ou até mesmo de disseminador de ideias. Não podemos deixar de citar as personagens varridas na cena, que de cima para baixo, representam os Czares, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa e um burguês, mais precisamente um banqueiro, o que torna-se evidente através da análise das vestimentas de cada um deles. Outro detalhe na cena a ser percebido é o fato de todos os varridos serem “gordos”, o que nos reporta a ideia de “vida boa”, de abundância, de riqueza e/ou de fartura que estes viviam, lógico, tudo isso às custas da exploração do povo russo.

Na parte de baixo do cartaz, lê-se em russo “Camarada Lenin limpa o mundo do lixo capitalista”, mensagem de conteúdo ideológico fortíssimo que mostra o socialismo como força benigna de salvação da humanidade e o capitalismo como a força maligna, fonte de todo mal político, social e econômico. Dali em diante, muitas coisas aconteceriam no doloroso processo de consolidação do socialismo na Rússia que em 1922, ainda sobre o comando de Lenin se tornaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e mudaria a partir daquele instante o curso da História.


segunda-feira, 27 de junho de 2016

O CAFÉ COM LEITE DA VELHA POLÍTICA BRASILEIRA

Capa da Revista CARETA, publicada em 27 de agosto de 1925
Em 1925 o cenário político brasileiro estava bastante aquecido, pois desde a sua implantação em 1889, a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil enfrentara uma série de problemas de ordem econômica, política e social. Com certeza nas inúmeras discussões ocorridas em 25, o conchavo político entre paulistas e mineiros, ocupavam lugar especial e a prova disso é a charge presente na Revista Careta publicada no dia 27 de agosto daquele ano.
Produzida pelo caricaturista Storni, a charge acima, tornou-se “figurinha carimbada” em muitos livros didáticos de História (Ens. Fundamental e Médio) e em muitos slides de professores, quando o assunto abordado é a conhecida Política Café com Leite, período de domínio político das oligarquias dos Estados de São Paulo e Minas Gerais que detiveram juntas, mais da metade dos presidentes da República Velha (1889-1930). Contudo passemos a observação mais atentada da charge:

Aspecto 1 – A POLTRONA PRESIDENCIAL ocupa o lugar mais alto e central da cena fazendo uma alusão ao poder máximo, o de chefe da nação, o cargo de presidente da República. O acento presidencial está sobre um monte que lembra o Pão de Açúcar, permitindo-nos fazer uma relação com o Rio de Janeiro, a capital do Brasil naquela época. Repare também que no encosto na mesma está escrito “Presidência da República”, o que facilita nossa compreensão.

Aspecto 2 – DOIS FAZENDEIROS, se preferir, CORONÉIS estão distribuídos de maneira a nos dar a sensação de que são donos, vigias e/ou guardiões da poltrona presidencial. Estes dois personagens, assim como insinuam os escritos em seus respectivos chapéus, representam os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Na cena os dois coronéis protegem o acento evitando que os demais (parte baixo) cheguem até a mesma, numa representação perfeita da política Café com Leite, que através de acordos políticos cuidavam para que candidatos à presidência pelo PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro), fossem eleitos sucessivamente. Na verdade o sucesso desta aliança estava pautado em dois fatores, o primeiro consistia no fato de São Paulo e Minas possuírem os maiores colégios eleitorais do Brasil, ou seja, juntos detinham uma quantidade de eleitores com potencial para praticamente decidir o processo eleitoral, já o segundo fator, residia nas respectivas economias, São Paulo era o maior produtor de café do Brasil, Minas o segundo maior produtor de café e tradicionalmente, um grande produtor de leite, no qual deu origem ao nome deste “acordão político”.   Existem outras versões para o nome Café com Leite, mas isto é secundário, uma vez que devemos reconhecer o êxito desta política para ambos os Estados, fruto de uma combinação perfeita.  Procurando ilustrar esse domínio, segue a lista dos presidentes paulistas e mineiros durante a Primeira República: 1894 – 1898: Prudente de Morais (Paulista) / 1898 – 1902: Campos Sales (Paulista) / 1902 – 1906: Rodrigues Alves (Paulista) / 1906 – 1909: Afonso Pena (Mineiro) / 1914 – 1918: Wenceslau Brás (Mineiro) / 1918 – 1919: Delfim Moreira (Mineiro) / 1922 – 1926: Arthur Bernardes (Mineiro). (Confira a lista completa aqui)

Aspecto 3 – NA PARTE INFERIOR do monte, percebe-se um grande número de CORONÉIS que procuram alcançar a poltrona presidencial, mas o esforço é em vão. Estes coronéis representam os demais estados do Brasil (escritos nos chapéus) que não conseguiam chegar ao cargo da presidência, fazendo praticamente do Brasil, uma República de hegemonia bipartidária, o que nos remete, de maneira até um pouco grosseira, a uma coincidência com a nação inspiradora do primeiro modelo de República do Brasil, os Estados Unidos (hegemonia dos partidos Democratas e Republicanos).

Aspecto 4 – Para complementar a cena que fala por si só, há uma legenda com o seguinte dizer: A FORMA DEMOCRÁTICA – Os detentores: tenham paciência, mais aqui não sobe mais ninguém! Este detalhe destacado, nos remete não somente ao domínio paulista e mineiro sobre a política e a economia do Brasil daquele período, mas a um sistema republicano manco, falho ou como preferem os historiadores, velho, incapaz de atender aos interesses políticos e sociais dos demais Estados da federação.

Aspecto 5 – Cabe ainda registrar mais um último detalhe, este importantíssimo, A AUSÊNCIA DO POVO. Ora se a palavra República, significa “coisa do povo”, aonde está a população? Qual era o seu papel diante dessa configuração política? A República foi implantada através do discurso de que todo homem se tornaria cidadão, mas na prática, condições foram impostas aos votantes, como por exemplo, ser alfabetizado, excluindo uma grande quantidade de pessoas da possibilidade do exercício direto da cidadania. Os poucos que conseguiram o direito do voto eram fisgados pela rede dos viciados conchavos do sistema político brasileiro alimentados pela Política dos Governadores e do Coronelismo. Dessa forma, o que sai da urna não é nem de longe, o resultado do interesse popular, mas das oligarquias dominantes que se perpetuavam no poder.



terça-feira, 7 de junho de 2016

TIRADENTES: A CONSTRUÇÃO DE PEDRO AMÉRICO

Tiradentes esquartejado. Óleo sobre tela de Pedro Américo, 1893

Aos 20 dias do mês de abril do ano de 1792, no Rio de Janeiro, capital da América portuguesa, eram publicadas as condenações a respeito dos inconfidentes mineiros. Uma delas em especial merece relevância, a de Tiradentes, como podemos observar a seguir:

(...) condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, (...) a que (...) seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada à Vila Rica, aonde no lugar mais público dela será pregada em um poste alto até que o tempo a consuma; o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes pelo caminho de Minas (...) aonde o réu teve as suas infames práticas (...) até que o tempo também os consuma. Declaram ao réu infame, e infame seus filhos e netos.
Autos da devassa da Inconfidência Mineira, citado por Silvia H. Lara. Em: Obra citada. p. 19

A condenação de Tiradentes produziu um dos mais famosos episódios da nossa História e uma das mais icônicas imagens, “TIRADENTES ESQUARTEJADO” produzida pelo pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905), no ano de 1893. Dada a relevância da obra, presente em praticamente todos os livros didáticos, passaremos então a analisar seus detalhes e a simbologia que há por trás da cena criada:
O primeiro fator que nos chama a atenção é que o autor fez questão de manter as partes do corpo do condenado Tiradentes, reunidas em uma mesma cena. Percebam que a disposição de suas partes, nos faz lembrar do formato do mapa do Brasil, nos inclinando a associar a cena à História do Brasil, ou justificando à causa do “mártir” como nacional. Na verdade sabemos que a luta de Tiradentes foi regional, o que nos leva a afirmar que a cena não passa de uma construção ideológica, uma vez que as partes teriam sido espalhadas como foi explanada no trecho acima referente à condenação do inconfidente. O segundo ponto a observar é a aparência do condenado com Jesus Cristo, o Salvador, aquele quem lutou pela Liberdade dos pecadores contra a opressão do mal, ou seja, a causa do inconfidente também era a Liberdade, sua luta era contra a tirania opressora da Coroa portuguesa. Percebam que a forca não tem um destaque na cena, o que sobressai é o crucifixo ao lado da cabeça de Tiradentes, a sua presença é um dos fatores que nos permite fazer a associação agora relatada. Outro aspecto é o fato de Tiradentes está cabeludo e barbudo, não entrarei aqui na discussão da imagem real do mesmo, o que temos que levar em consideração é o fato de que tradicionalmente os prisioneiros e condenados à forca eram conduzidos à mesma, vestidos em um “camisolão” branco e com cabelos e barbas devidamente raspados.
O braço desfalecido de Tiradentes faz alusão ao braço desfalecido de Marat, líder revolucionário francês assassinado em 1793 e que também teve a sua morte pintada, construída, pelo pintor neoclassicista francês Jacques Louis David. Observe abaixo a tela citada “A morte de Marat”.

A morte de Marat. Óleo sobre tela de Jacques-Louis David, 1793.
Você deve está se perguntando, qual seria a relação entre a Revolução Francesa (1789) e a Inconfidência Mineira (1789)? Grosseiramente, eu diria que na prática não há relação direta, mas aqui precisamos nos atentar para o período em que a obra “Tiradentes esquartejado” foi pintada, 1893, são pouco mais de cem anos que separam a execução do inconfidente mineiro e a construção da cena que analisamos. Em 1893, o Brasil não era mais uma nação monárquica, mas uma República, recentemente implantada pelo exército brasileiro e este processo de implantação, bebeu aos largos goles do positivismo francês e de alguns princípios norteadores da revolução francesa. Sendo assim, é inegável a carga cultural que Pedro Américo sofrera deste contexto histórico transferindo-a para sua obra.
No início do período republicano (1889-1930) o governo brasileiro procurava se desfazer de tudo aquilo que remetia ao passado monárquico, era hora de ter seus próprios heróis em detrimento das figuras portuguesas que predominaram até então na história política do Brasil (Pedro Álvares Cabral, Tomé de Souza, D. João VI, D. Pedro I, etc.). Tiradentes, por ser militar, por morar na importante região das Minas e dentre outros fatores, foi especialmente pinçado da História, saindo da condição de vilão, traidor, condenado ao esquecimento, para se tornar uma das principais figuras da nossa história. Sua imagem construída foi amplamente divulgada construindo no imaginário popular a figura mítica de um herói nacional merecedor de constantes homenagens como nome de cidade, de ruas, feriado nacional 21 de Abril, o seu rosto está gravado no anverso, popularmente conhecido como “coroa” da moeda de 5 centavos e demais exaltações.

Grande abraço e até a próxima postagem!



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O EUROCENTRISMO em uma única imagem


Folha de rosto do Atlas Theatrum Orbis Terrarum.

O século XVI é tido por muitos como o sinônimo da consolidação das mais diversas transformações ocorridas na sociedade europeia desde o fim do período medieval, sejam elas no âmbito social, econômico, político ou cultural. A Folha de rosto do atlas Theatrum Orbis Terrarum, que trago para esta postagem, atlas este produzido por Abraham Ortelius em 1570 revela-nos aspectos extremamente interessantes ligados à concepção europeia que se tinha naquela época em relação aos continentes. Na verdade, o tal atlas é um documento oficial, uma vez que Ortelius era cosmógrafo de Felipe II (Espanha).
Carregada de uma visão EUROCENTRICA, a imagem proposta merece uma análise minuciosa que pretende perpassar pela simbologia contida em cada um dos elementos presentes e para isso, tomamos por base as observações feitas por dois historiadores em especial, são eles: Gustavo Celso de Magalhães e Miriam Hermeto.
A página de rosto da obra de Abraham Ortelius, cosmógrafo de Felipe II (Espanha), publicada em 1570, representa uma visão sobre os quatro continentes conhecidos. No alto, está a Europa como verdadeira filha de Deus. As figuras laterais representam a Ásia e a África e, em posição diametral oposta à Europa, está a América. Ao seu lado, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
A EUROPA é apresentada como uma mulher, acima de todos da cena e com uma a coroa e um cetro de comando do mundo, ela está ricamente ornamentada; ao seu lado estão dois globos sinalizando que ela é o centro do mundo (concepção essencial do eurocentrismo). A ÁSIA é apresentada também através de uma figura feminina (de pé ao lado esquerdo da cena) vestida, mas não com a mesma indumentária europeia. A mulher (Ásia) carrega em sua mão um pequeno vaso (dourado) sinalizando o seu ouro e as especiarias que produzia, no caso ilustrado, o incenso, percebido por meio da fumaça que sai do mesmo vaso. Já a figura feminina que representa a ÁFRICA (de pé ao lado direito) aparece minimamente vestida e negra (embora nem todos os habitantes da África sejam negros e os europeus dessa época já soubessem disso), tem em uma das mãos um galho como se seus habitantes ainda vivessem basicamente daquilo que a natureza oferece e/ou porque produziam especiarias que interessavam aos europeus. A AMÉRICA (mulher no extremo inferior da cena) aparece totalmente nua e semideitada, como se seus habitantes não fossem muito afeitos ao trabalho (“preguiçosos”), e bastante atrasados e selvagens por ainda não utilizarem roupas (isso é uma generalização, pois os europeus conheceram povos nativos na América que usavam roupas); ela tem nas mãos uma cabeça de uma pessoa, mostrando que entre os habitantes reinava a barbárie e violência e que viviam guerreando, como indicam as flechas. Ao lado da América, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
Enfim, a disposição das personagens que compõem a cena (o fato dos continentes estarem abaixo da Europa e em uma construção comandada pela Europa) a representação traz a noção de que todos os outros continentes eram habitados por povos inferiores, que deveriam ser conquistados e cristianizados. Ainda podemos dizer que, a imagem é tradução perfeita do tal EUROCENTRISMO, aspecto extremamente polêmico e que foi durante muitos anos e ainda é, muitas vezes, predominante na historiografia ocidental, acobertando verdades históricas, apagando da História grandes personagens e “furtando” méritos de outros povos em favor dos europeus.

Ficamos por aqui, um forte abraço e até a próxima! 




sábado, 30 de junho de 2012

A GANSA DA INDEPENDÊNCIA

Autor desconhecido. 1776. Coleção particular


Olá pessoal! É com imensa satisfação que retornamos às atividades do blog HISTÓRIA POR IMAGEM e para a nossa primeira postagem trago uma imagem relacionada ao processo de independência dos Estados Unidos.
A imagem é de autoria desconhecida, mas pelo ano de sua produção (1776) e pelo conteúdo expresso na mesma, podemos tranquilamente associá-la à crise vivenciada entre o Império Britânico e as suas treze colônias americanas. Além da autoria desconhecida, há ainda uma divergência quanto ao título dado para esta obra, uns a chamam de “O Ganso de Ouro”, outros de “A Gansa dos Ovos de Ouro”, particularmente prefiro o segundo título, já que a relação entre Gansa e Ovos é mais bem lógica. rsrsrs
Dessa forma, vamos a nossa análise:
Na parte direita da imagem vemos UM HOMEM COM UMA ESPADA EMPUNHADA, pronto para abater a gansa que está sobre a mesa. Pelos trajes do homem citado, percebemos que trata-se de um soldado (britânico). Ao redor da mesa e consequentemente da gansa, observa-se um grupo de homens, muito bem trajados, que assistem de forma “alheia” a tudo o que acontece.
Contextualizando a imagem com o evento histórico no qual a obra se refere, deduz-se que os HOMENS RETRATADOS SÃO BRITÂNICOS e pelas vestes que usam nos permite afirmar que  são integrantes da nobreza, ou seja, são na verdade ministros do governo britânico. Outro aspecto que merece nossa atenção é que a postura de assistir pode ser relacionada a omissão, ao descaso, à passividade, ou ainda, à desvalorização daquilo que está se perdendo. Para bem entendermos a mensagem que o autor procura passar é necessário conceber a GANSA como às treze colônias inglesas da América e o CESTO REPLETO DE OVOS, carregado por um dos ministros britânicos, que aliás o faz com um sorriso estampado no rosto, representa as riquezas que as colônias concediam ao Império Britânico. A riqueza citada não está expressa apenas no cesto repleto de ovos, repare na gordura (fartura) dos dois ministros que se colocam ao lado esquerdo da obra.
Saindo da cena principal, outros dois elementos da cena chamam nossa atenção. O primeiro deles é o quadro com um LEÃO ADORMECIDO (na parte superior – centro), repare que UM FEIXE DE LUZ vindo do alto recai sobre o leão que não expressa nenhum tipo de incomodo. O leão é o símbolo da Grã-Bretanha e é exatamente isto que ele representa no quadro, já o feixe de luz são as ideias liberais (iluministas) que são ignoradas pelo governo britânico quando o assunto é as treze colônias. O segundo aspecto seria o CACHORRO URINANDO SOBRE O MAPA DA AMÉRICA, o que conota uma condição de total descaso e/ou desdém dos britânicos para os colonos americanos e sua causa.
Se juntarmos todos os elementos da cena apresentados e analisados até aqui, poderemos chegar a conclusão que o autor faz uma crítica profunda ao governo britânico e até procura despertar a fúria dos colonos em relação a este mesmo governo. A crítica citada exprime a "estupidez" do governo do rei George III (Jorge III) que agindo de forma antiliberal, aperta ainda mais a exploração das colônias através da cobrança de impostos, interferindo de forma pesada nos rumos da economia colonial. Na verdade, a crítica mais acentuada fica no ato de matar aquilo que é rentável, lucrativo, ou seja, a gansa (as 13 colônias americanas) o que logicamente seria um ato insano, mas vale ainda ressaltar que agir dessa forma não era anormal, já que a função básica de toda e qualquer colônia é de enriquecer a sua metrópole. Neste caso, em especial, o arrocho da exploração por parte do governo britânico em relação aos colonos americanos foi a gota d’água para por um fim na então relação pacífica entre as treze colônias inglesas da América e a Grã Bretanha resultando num sangrento processo de independência.
Bom... Vamos ficando por aqui e até uma próxima postagem!
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Forte abraço e saudações históricas!


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

VOTO DE CABRESTO: o coronel, o eleitor e a soberania



As três primeiras décadas do século XX foram marcadas pelo esforço do governo brasileiro numa tentativa de consolidar o sistema republicano recém-instalado. A monarquia era coisa do passado e concebida pelos integrantes do movimento republicano, antes mesmo da sua queda, como um sistema ultrapassado de governo e que, até então, impedira o Brasil de alcançar o progresso. Dessa forma, a “Coisa do Povo”, significado do termo latim res publica, implantada como sistema político em 15 de novembro de 1889, aparentemente traria grandes avanços para a população brasileira daquele período no que se refere aos direitos políticos.

Segundo o historiador Alfredo Boulos Júnior, “(...) na época do Império, era preciso ter uma renda mínima para votar; em outras palavras, o voto era censitário. Isso restringia o número de pessoas aptas a votar. A constituição republicana de 1891, no entanto, aboliu o voto censitário. O eleitor deveria ser alfabetizado e mulheres, monges, frades e soldados não votavam. Porém, ainda que a exclusão do direito ao voto continuasse grande, o número de eleitores cresceu bastante.” (História: Sociedade & Cidadania. p.60)

Embora houvesse de fato o aumento do número de eleitores, o resultado obtido nas urnas estava muito longe de expressar a vontade real dos votantes, ou seja, as urnas apuradas Brasil afora, sobretudo nas zonas rurais, e vale lembrar que aproximadamente 70% da população brasileira em 1920 morava na zona rural, explicitava o domínio político exercido pelos coronéis nessas regiões.

A charge acima proposta é do gaúcho Alfredo Storni e foi publicada em 1927 satirizando o então “voto de cabresto”. Os elementos dispostos na cena nos proporcionam informações preciosas para uma análise crítica acerca da ação e da manipulação dos coronéis nas eleições na primeira república brasileira. Diante do exposto até aqui, passaremos a análise da charge:

Do lado esquerdo da cena aparece uma mulher com um vestido e com uma expressão de desapontamento, decepção ou tristeza. Repare que logo abaixo do vestido está escrito SOBERANIA, sendo assim, subtende-se que o termo soberania, se atrelado a eleições diretas, ganha o sentido de “vontade, decisão ou a escolha do povo em sua totalidade ou maioria”. Neste quesito reside um aspecto curioso, pois a moça (soberania) encontra-se fora da urna (entre a moça, o político e o burro) demonstrando que os resultados que saíam de dentro das urnas não expressavam a real vontade do povo, mas sim das oligarquias regionais que acabavam forçando as pessoas que estavam sob os seus domínios, a votarem em determinados candidatos, daí talvez saia a justificativa da desapontada expressão presente no rosto da moça.

Do lado direito da urna estão dispostos um coronel (POLÍTICO) segurando um ELEITOR pela rédea, este representado com uma cabeça de burro e um cabresto (cabresto é um equipamento utilizado em animais de montaria como burros, jumentos, cavalos e que servem para orientar o animal segundo a vontade do montador). Nota-se a postura curvada do eleitor, submisso e cabisbaixo. Esta cena em si, simboliza exatamente o sentido da palavra cabresto, ou seja, o coronel conduzia seus subordinados a seção eleitoral obrigando-os a votar no candidato que estava atrelado ao seu interesse, seguindo a linha de raciocínio de que “o que fosse bom para o coronel, seria bom para seus dependentes”.

Outro aspecto interessante na cena é que o eleitor carrega consigo um livro ou uma caderneta transmitindo-nos a ideia de que ele é alfabetizado, já que esta era uma das condições exigidas pela constituição para se exercer o direito ao voto. Para finalizar, olhando a paisagem em que a cena se passa, chegaremos a conclusão de que os personagens estão na zona rural.

Contudo, o voto de cabresto perpetuou-se por muitos anos, garantindo a hegemonia política de determinados grupos oligárquicos brasileiros principalmente os de Minas Gerais e São Paulo. Este tipo de manipulação eleitoreira variou no tempo e se vacilar, ainda hoje encontraremos situações assemelhadas a este tipo de manipulação política, cabendo a nós instigarmos a nossa imaginação e analisar a fundo a jogatina política vivenciada nos dias atuais. Para não me alongar mais, citarei um exemplo:

Será que o fato de algumas emissoras de TV, revistas, jornais, sites, dentre outras fontes midiáticas, serem tendenciosas a determinadas ideologias políticas, não acabam sendo decisivas no que diz respeito a escolha de um candidato num processo eleitoral? E sendo dessa forma, a soberania popular não ficaria mais uma vez de fora das urnas? Será que os eleitores diante dos discursos difundidos não acabam sendo conduzidos mais uma vez pelos “coronéis” da atualidade como se utilizassem “cabrestos”?

É uma boa discussão...

Valeu pessoal, um abraço forte e até a próxima postagem.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O SUBMUNDO DAS TRINCHEIRAS


Olá pessoal! É um prazer enorme retornar as atividades do blog neste ano de 2012. Espero que este seja um ano proveitoso e que o blog possa possibilitar relevantes momentos de reflexão sobre fatos ocorridos ao longo da História a partir da leitura de imagens históricas. Sendo assim, sejam bem vindos a temporada 2012 do blog “HISTÓRIA POR IMAGEM”.
A imagem acima proposta para nossa análise, refere-se a Primeira Guerra Mundial que ocorrera na segunda década do século XX. Confesso que não foi fácil escolher uma imagem para esta postagem, diante das inúmeras fotografias que registraram a realidade que os soldados enfrentavam na segunda fase do conflito, fase esta conhecida como “guerra de trincheiras”. No entanto, esta fotografia parece-me que bem transmite a agonizante vida dos combatentes no maior conflito armado que a humanidade até então havia presenciado.
A trincheira, adotada como uma tática de guerra, nada mais era que um corredor cavado ao chão, uma espécie de um parapeito, que serve de abrigo e proteção para os combatentes em um conflito, como podemos observar na imagem a seguir.

Na verdade, a tranquilidade aparente que se observa na foto acima, causa-nos a impressão de um certo ar de familiaridade dos combatentes com o local, e de fato a trincheira acabava se tornando um espaço familiar, aonde as tropas passavam semanas expostas ao tempo, entregues a sorte e à condições sub-humanas de sobrevivência. Ali, em meio a “tempestade de munições”, dos mais variados tipos, os soldados compartilhavam alimentos, água, bebidas alcóolicas, histórias, saudades, cansaço e dores. O posicionamento em trincheiras tornava difícil a derrota da tropa adversária, o que fazia com que o conflito se estendesse por muito tempo e, dessa forma, logo os sinais de desgastes físicos, emocionais e de baixa nos estoques de alimentos, recaiam sobre os combatentes, como podemos acompanhar num depoimento contido em uma carta encontrada no bolso de um soldado alemão na Batalha do Somme (1916):
“Estamos tão exaustos que dormimos, mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não somos revezados. Os aviões lançam projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas – pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno!”
(Fonte: J. M. Roberts (org.) História do Século XX. In: Adhemar Martins Marques et al. História Contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 1994. p.120).
Além do desgaste físico, emocional e do stress expressos no depoimento, torna-se evidente a desilusão com a guerra, antes almejada por boa parte dos cidadãos das potências envolvidas, por estar associada ao progresso e a prosperidade econômica que recairia sobre a  nação vitoriosa. A visão do próprio inferno, descrita pelo combatente alemão clarifica-se ainda mais, quando o historiador Ken Hill, descreve em seu livro "A Primeira Guerra Mundial", a realidade diária enfrentada pelos soldados numa trincheira:
A vida nas trincheiras era horrível. Quando chovia, o que é comum na região, os túneis inundavam. E os soldados tinham que lutar, comer e dormir por semanas com os uniformes encharcados. Havia lama por todos os lados, às vezes atingindo até o peito dos homens. Eles não podiam manter-se aquecidos, e as doenças se espalhavam, matando milhares de pessoas diariamente. Para completar, os vivos sofriam com os piolhos, enquanto os ratos se alimentavam dos cadáveres. (Hills, Ken. A Primeira Guerra Mundial. p. 7.)
Acredito piamente que esta horripilante descrição do submundo vivenciado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, casam perfeitamente com a imagem inicial desta postagem, daí a razão da minha escolha pela mesma. Contudo, podemos concluir que a Primeira Guerra ainda hoje é considerada uma das maiores carnificinas que já ocorreram na história da humanidade, a estupidez estatal que em nome de um manipulado patriotismo esquece-se de que nos campos de batalhas não estão a oportunidade de crescimento. Sendo assim, os seres humanos que ali estão, detentores de planos, de sonhos, laços afetivos (família, amigos, etc.), são capazes sim, de erguer uma nação pela força do trabalho e não da guerra.
Ficamos por aqui, deixo um excelente vídeo relacionado a guerra de trincheira na Primeira Guerra Mundial e que acredito servir para bem ilustrar este conteúdo em sala de aula.

Se és simpatizante do blog HISTÓRIA POR IMAGEM, divulgue-o.
Saudações!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PAPAI NOEL, SÃO NICOLAU E A COCA-COLA

Olá pessoal!

Está chegando o final do ano e com ele os festejos natalinos, e por falar em Natal, não poderíamos deixar de abordar uma figura histórica referente a este período do ano: o PAPAI NOEL. Várias versões e relações são criadas, recriadas, contadas e estabelecidas sobre o surgimento desta lenda natalina. Ao longo da pesquisa realizada para esta postagem pude perceber que o processo de criação deste relevante personagem natalino, tal qual o conhecemos nos dias atuais, tem estreita relação com religiosidade, tradição e o sistema capitalista.

São Nicolau
A história do Papai Noel, embora alguns religiosos rebatam esta tese, tem relação com São Nicolau, santo da Igreja Católica. Vejamos um trecho de uma hagiografia, uma espécie de biografia dos santos produzida pela Igreja Católica na Idade Média:
Nicolau nasceu no ano de 270, na cidade de Patara, no sul da atual Turquia, na Ásia Menor. Os seus pais eram cristãos devotos e, desde crianças, ele mostrou-se um predestinado. Ficou órfão muito jovem e decidiu usar sua herança em obras de caridade. Andou em peregrinação pela Terra Santa e pelo Egito e, quando voltou à terra natal, tornou-se o bispo de Myra. Foi exilado em 303, quando a religião católica foi proibida ali. Morreu em 343 e foi enterrado em Myra.
Conta-se que Nicolau dedicou sua vida à caridade e aos atos de benevolência, muitos deles conhecidos. O mais famoso é o episódio em que ele salvou três irmãs muito pobres, que não podiam se casar porque o pai não tinha como pagar, os seus dotes. Sem o casamento, naquele tempo, as mulheres perderiam sua honra. Nicolau deu a elas uma oportunidade de ter uma vida digna, atirando, de noite, três sacos com ouro suficiente para os dotes de cada uma das moças. Essa história ganhou várias versões diferentes, o que a transformou em lenda.
Em razão de seus atos, depois de morto, passou a ser honrado, venerado e reconhecido como santo milagreiro. No final do século XI, suas relíquias, consideradas miraculosas, foram transportadas por um grupo de mercadores italianos para a cidade de Bari, na Itália, onde até hoje há um santuário, que virou local de peregrinação.
São Nicolau foi nomeado padroeiro das crianças, dos estudantes, dos marinheiros, dos solteiros e da Rússia. Criou-se a tradição de, no dia 6 de dezembro, dedicado ao santo, dar presentes às crianças, seguindo o seu exemplo. (MAGALHÃES, Gustavo Celso; HERMETO, Miriam. Coleção Pitágoras. 2010)


Representação de São Nicolau.
Nesta imagem ele já aparece mais velho e pela roupa que usa nos leva a acreditar
que já desempenhava a funçãode bispo católico.
Repare como suas características físicas já
possuem uma semelhança com a imagem atual do Papai Noel.
Diante disso, devemos nos apegar principalmente ao fato de que o ato de caridade de Nicolau em relação às três meninas apontadas pelo texto, se tornou uma tradição, a de dar presentes no dia dedicado ao santo. Anos mais tarde esta tradição foi transferida para o Natal. No entanto a fama de Nicolau foi ganhando ao longo dos anos uma proporção grandiosa, como nos mostra o texto abaixo:
Na Europa, o culto a São Nicolau só cresceu depois do século XI, espalhando-se enormemente. Ele passou a ser considerado o patrono da Rússia e várias igrejas foram criadas em sua homenagem, pelo mundo cristão. Na Alemanha, manteve-se a tradição de dar presentes no dia de São Nicolau. Com o tempo, sua imagem passou a ser associada às festividades de Natal, que se transformou em uma festa famosa e popular. E a lenda do bom homem que distribuía presentes natalinos cresceu mundo afora, assim como o hábito de trocar presentes.
Mas, parece, foi nos Estados Unidos, a partir do século XIX, que são Nicolau começou a ser associado à lenda do Papai Noel. Foi ali que se construíram as características do Noel que o mundo ocidental mais conhece hoje. Como toda lenda, essa pode ter sido construída por vários caminhos e tem muitas versões. Mas um desses caminhos é conhecido atualmente.
Em 1822, Clement C. Moore escreveu um poema para seus filhos, chamado “A Visit from St. Nicholas” (Uma visita de São Nicolau). Ele narrava a história do velhinho que passava em um trenó puxado por renas e entrava nas casas pelas chaminés.
O primeiro desenho retratando a figura do Papai Noel como conhecemos nos dias atuais foi feito por Thomas Nast e foi publicado na revista Harper’s Weekley, na edição especial de Natal do ano de 1866. O desenho retratava o bom velhinho com bochechas rosadas, uma vestimenta marrom e uma coroa de azevinhos (um tipo de planta usado nas decorações natalícias) na cabeça. Observe abaixo, como o Papai Noel feito por Thomas Nast, já apresentava características físicas bem semelhante ao da atualidade.
Papai Noel criado por Thomas Nast.

A última característica incluída na figura do Papai Noel é sua blusa vermelha e branca. Essa imagem se popularizou de vez, depois do uso que a Coca-Cola fez dela em suas propagandas.
O produto já existia desde o final do século XIX, e era vendido, incialmente, em farmácias. Por volta de 1930, a empresa fez uma campanha, em busca de um público mais jovem. Contratou um desenhista que recriou o Papai Noel: um velhinho gorducho, com um sorriso simpático e vestido com as cores da marca da Coca-Cola.
Na segunda metade do século XX, a Coca-Cola só cresceu, tornando-se conhecida e consumida no mundo inteiro. Com ela, a imagem do velhinho de vermelho circulou pelo mercado global e, praticamente, tornou-se a imagem oficial do Papai Noel. (MAGALHÃES, Gustavo Ceslso; HERMETO, Miriam. Coleção Pitágoras. 2010)
Papai Noel criado pela Coca-Cola.

Diante de tudo, segue a discussão sobre o impasse daqueles que defendem que o Papai Noel deve ser considerado um símbolo da cultura natalina e daqueles que o julgam como um ícone do sistema capitalista que representa apenas o consumismo. No entanto, ao darmos uma conferida na História e no processo de criação deste polêmico e porque não dizer, controverso personagem, veremos que no fundo, lá em sua essência original, ele possui um pouco dos dois, da religiosidade pelo fato de que a sua principal ação, a de dar presentes às crianças, está ligada a uma tradição católica, esta fruto da caridade feita por São Nicolau e também do consumismo, já que com o advento do sistema capitalista, dar presentes, se tornou sinônimo de comprar presentes, ou seja, consumir, pelo menos é essa conotação que o comércio tenta nos impor em todo período natalino.
Ficamos por aqui, um forte abraço e um ótimo Natal a todos!


terça-feira, 29 de novembro de 2011

SOCIEDADE FRANCESA NO FINAL DO SÉCULO XVIII

Caricatura Francesa do final do século XVIII.
Biblioteca Nacional de Paris

Olá pessoal! Bom estar com vocês mais uma vez.
Nesta postagem analisaremos o simbolismo de uma caricatura francesa do final do século XVIII. No decorrer da postagem faremos uma associação desta com a realidade vivida pela sociedade francesa a luz daquela época.
Para melhor fazermos essa associação aqui proposta, cabe-nos explanar rapidamente acerca da configuração social francesa no final do século XVIII. Então vamos lá!
Naquela época a França era composta de aproximadamente 24 milhões de habitantes e nessas condições, era disparadamente o país mais populoso do continente europeu. Outro fator que merece destaque é a desigualdade social existente entre os franceses daquele período. Submissa a um sistema político absolutista, a sociedade francesa era dividida em três estados ou grupos sociais como podemos ver abaixo:
Primeiro Estado: Composto pelo clero da Igreja Católica que curiosamente se dividia em duas classes distintas: o alto clero (cardeais, bispos e abades) e o baixo clero (padres, frades e monges). Na realidade o alto clero gozava de privilégios estatais e pelo fato de legitimar o poder real, lhes era concedido a isenção do pagamento de tributos (impostos). De contrapartida, o alto clero possuía um poder de arrecadação de tributos invejável, alicerçado na cobrança do dízimo, das altas taxas que eram exigidas dos fiéis na realização de batismos, casamentos e sepultamentos. A riqueza acumulada pela Igreja ainda bebia de outra importante fonte, as terras. O alto clero concentrava uma grande quantidade de terras e consequentemente um número muito grande de trabalhadores que prestavam serviços e pagavam excessivas taxas.
Segundo Estado: Esta parcela da sociedade francesa era composta pelos integrantes das famílias tradicionais, também conhecidos como nobres. Para a nobreza também eram destinados privilégios reais, como por exemplo, o não pagamento de impostos, cargos públicos importantes, dentre outros. A nobreza francesa era também detentora de grandes propriedades de terras e consequentemente possuíam muitos servos que trabalhavam nestas terras e pagavam pesados impostos aos nobres.
Terceiro Estado: Este grupo social era composto pelos camponeses, trabalhadores urbanos e a burguesia que juntos equivaliam a aproximadamente 98% da população francesa. A eles não eram destinados nenhum tipo de privilégio real, muito pelo contrário, recaia sobre estes o pesadíssimo fardo do pagamento de impostos e para os camponeses, em especial, lhes eram acrescidos ainda, as obrigações feudais. Na realidade era o Terceiro Estado que sustentava os outros dois, ou seja, 98% de pobres, miseráveis sustentando as regalias e os privilégios de 2% de ricos.
Bom... agora que conhecemos um pouco a realidade de cada grupo social francês daquela época, passemos a observar a caricatura proposta. O traje de cada um dos personagens, torna fácil a identificação dos mesmos, sendo assim, o primeiro que está acima ou nas costas do velho, traz ao peito um crucifixo, trata-se de um integrante do clero, provavelmente do alto clero. O Segundo personagem que está nas costas do velho, carrega consigo uma espada, além disso, repare como está muito bem vestido, dessa forma podemos concluir que trata-se de um nobre. Por fim, o velho, carrega nas costas os dois, o nobre e o religioso. Com uma expressão de sofrimento, cansaço, parece não aguentar mais por muito tempo o fardo que carrega sozinho.
A caricatura é fantástica, a disposição dos personagens é perfeita, observe atentamente. Em primeiro (acima) vem o 1º Estado, representado por um integrante do alto clero, logo atrás dele vem o 2º Estado, representado por um nobre e por último (abaixo) vem o 3º Estado, representado por um camponês, a identificação deste torna-se evidente não só pela roupa desgastada que ele usa, mas também pela presença de ovelhas e passarinhos que comem sementes ao chão, tornando o ambiente pelo qual se passa a cena, rural.
Simbolicamente a cena retratada chama a atenção da sociedade francesa da época para a questão da exploração sofrida pelos camponeses que, ao trabalhar nas terras pertencentes ao clero e a nobreza, acabavam por sustentar, através do sistema servil e dos tributos pagos, o 1º e 2º Estados.
Para finalizarmos, confesso que tentei procurar a autoria da caricatura aqui analisada, mas ela está em anonimato, o que não nos impede de tecer elogios ao indivíduo que a criou, pois o mesmo conseguiu sintetizar os problemas oriundos a desigualdade da sociedade francesa em apenas um simples desenho, em uma simples imagem.

Forte abraço a todos e saudações históricas!

domingo, 13 de novembro de 2011

A BANDEIRA PROVISÓRIA DA REPÚBLICA BRASILEIRA

Primeira Bandeira do Brasil República.

A exatos 122 anos atrás, caía o sistema monárquico brasileiro. Altamente desgastado, o reinado de D. Pedro II não atendia mais aos interesses de boa parte da sociedade brasileira. O crescimento do movimento republicano, a abolição da escravatura sem nenhum tipo de recompensa aos proprietários de escravos, os conflitos entre Estado e Igreja, o desejo de maior participação no campo político, dentre outros aspectos engrossavam a gama de problemas a serem enfrentados por D. Pedro II na última metade do século XIX.
Na verdade a queda da monarquia brasileira era questão de tempo e já era esperada por muitos. O que não se esperava, era a rápida resolução do caso. Na noite de 15 de novembro de 1889, oficiais militares sob o comando do Marechal Deodoro da Fonseca aplicara o golpe militar obrigando a renuncia do ministério imperial e a proclamação do regime republicano no país. Isso mesmo, a suplantação do sistema monárquico brasileiro, foi realizada por um grupo de militares que fizera o trabalho em poucas horas, sem a participação popular, de políticos e sem a menor resistência por parte do então governo brasileiro.
Dessa forma, coube às camadas populares, o conformismo que se fez presente na seguinte expressão: “Fomos dormir Monarquia e acordamos República”.
Acredito que a facilidade encontrada no processo de transição do sistema político brasileiro em 1889 pegou de surpresa até mesmo os próprios republicanos. Uma prova disso, é que não se tinha até aquele momento, sequer um rabisco de uma nova bandeira para o Brasil, já que a bandeira imperial era composta por elementos que contemplavam o sistema monárquico. Diante de tal situação, a solução encontrada foi adotar uma bandeira provisória, esta mesma proposta no início dessa postagem e que ficou hasteada durante cinco dias após a proclamação da república.
Percebam como ela é completamente diferente da atual. O que se assemelha são os sentidos atribuídos as cores (VERDE - o vigor das matas brasileiras; AMARELO - as riquezas minerais; AZUL - o céu; BRANCO - a paz) e as estrelas que também representam os estados brasileiros.
Outro fator a se notar é a semelhança com a bandeira dos Estados Unidos, e de fato, esse era o propósito, já que na base ideológica do movimento republicano existia o desejo de implantar um sistema federalista no Brasil idêntico ao norte-americano, opondo-se dessa forma ao centralismo monárquico.

Uma curiosidade a respeito desta bandeira é que o estilo dela acabou inspirando na formulação de outras bandeiras de alguns estados brasileiros.Vejamos alguns exemplos a abaixo:

Antiga bandeira de Sergipe


Antiga bandeira do Piauí


Bandeira de Goiás
Embora a primeira bandeira republicana do estado brasileiro tenha recebido o status de provisória e que a sua condição de “validade” tenha durado apenas 5 dias, estes foram suficientes para inserí-la na história do nosso país, representando dessa forma, as aspirações da era republicana que acabava de nascer.

Se queres saber mais sobre à proclamação da república, aqui mesmo no blog História por Imagem você vai encontrar outra postagem a respeito da construção dos símbolos nacionais neste período da nossa história. Se interessou? Confira ou relembre esta postagem clicando aqui.
Para encerrar, disponibilizo abaixo o hino da Proclamação da República:

Forte abraço e a gente se encontra por aqui.
Saudações históricas!



domingo, 30 de outubro de 2011

JÂNIO QUADROS E A TAL CONDECORAÇÃO DE GUEVARA

O presidente Jânio Quadros condecorando o ministro cubano Ernesto Guevara
com a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul, em agosto de 1961.

Em 1960 o candidato a presidente da república Jânio Quadros, vencia as eleições com cerca de 48% dos votos válidos. Sua vitória representara um certo consolo para os udenistas (UDN-União Democrática Nacional), partido político de Jânio, e que já havia sido derrotado  em eleições anteriores.
Jânio Quadros em campanha eleitoral (1960) 
Com uma vassoura em punho, o lema de campanha de Jânio Quadros era “Varrer a corrupção e o empreguismo público”. Seu perfil moralista o fez adotar medidas polêmicas como, por exemplo, a coibição ao uso de biquini em praias, a proibição das corridas de cavalos em dias de semanas, dentre outros aspectos.
Uma dura tarefa aguardava Jânio Quadros, já que as condições econômicas do país não estavam bem, a dívida externa havia crescido assustadoramente no mandato anterior, o de Juscelino Kubitschek, sem contar, a alta inflacionária. Numa tentativa de minimizar os problemas e equilibrar as contas, Jânio adotou algumas medidas como o congelamento dos salários, o aumento de impostos e suspendeu algumas linhas de créditos que o governo disponibilizava para empresários e importadores de trigo e petróleo. Sem essas linhas disponíveis, o preço do pão e da gasolina sofreu em pouco tempo um reajuste na ordem de 100%.
Como já deu para perceber, estamos falando de um político polêmico e é justamente uma dessas atitudes polêmicas que colocamos agora em nossa discussão. A imagem proposta para nossa postagem trata-se de uma fotografia, um registro histórico que nos mostra uma das mais polêmicas atitudes de um governista no período democrático compreendido entre os anos de 1946 a 1964. A fotografia registra o exato momento em que Jânio Quadros condecorava, com a mais alta honraria da nação brasileira, a medalha da Ordem do Cruzeiro do Sul, o então ministro cubano Ernesto Che Guevara, como se observa na foto.
Até ai, tudo certo? Errado! É preciso lembrar que vivíamos neste período a "paranóica" Guerra Fria e a atitude de homenagear um líder comunista em solo capitalista, por mais desprenteciosa que seja, não poderia passar despercebida e sem qualquer tipo repercussão ou "buchicho" político.
Sendo assim, diante de tal homenagem, os setores mais conservadores da política e da sociedade brasileira, acusavam Jânio Quadros de ter se alinhado ao bloco comunista e chegaram até mesmo a cogitar que a intenção de Jânio era implantar uma ditadura no Brasil. É em meio a esse conturbado contexto, que surpreendentemente no dia 25 de agosto de 1961, o então presidente da república renunciara. O motivo, não muito claro, de sua renúncia abriu brechas para muitas interpretações. Alguns afirmaram que a renuncia de Jânio Quadros fora uma estratégia do mesmo com o objetivo de se perpetuar no poder, desta vez, sem processo eleitoral, mas trazido pelos braços do povo que exigiria nas ruas a sua volta, o que acabou não acontecendo.
De certo é que o Congresso, composto em sua maioria por oposicionistas, não titubeou em aceitar a renuncia de Jânio Quadros, que com apenas com apenas 7 meses de empossado, via seu mandato chegar ao final.
Segundo o historiador Boris Fausto, a intenção de Jânio ao condecorar Che Guevara era simbólica, na verdade o presidente brasileiro queria anunciar ao mundo, ao reatar as relações diplomáticas com os soviéticos, que as relações políticas internacionais do Brasil a partir daquele momento era independente, ou seja, não estaria submissa as determinações nem dos Estados Unidos, líder do bloco capitalista, nem muito menos da União Soviética, líder do bloco comunista. Ainda nesta linha de raciocínio de Boris Fausto, o prefeito de Brasília em 1961, Paulo de Tarso Santos, por meio de um depoimento recorda aquele momento:
 “A condecoração foi um ato artificial porque não era uma adesão política do Jânio ao Guevara. O governo todo, aliás, ficou horrorizado com ela. Ninguém queria dar o almoço protocolar, nem os ministros, nem o próprio Palácio do Planalto. (...) A cerimônia de condecoração, imagine, ocorreu às 6 horas da manhã. Depois Guevara foi deixado às moscas. Após o almoço eu sobrevoei Brasília, de helicóptero, com ele. (...) Quando nós aterrissamos, de volta, no aeroporto, não havia nos esperando um único ministro de Estado, uma única figura oficial, sequer havia um único soldado.” (SANTOS, P.T. 64 e outros anos. São Paulo: Cortez, 1984. p.34-5)
Contudo, o governo de Jânio Quadros foi um dos mais curtos da nossa história política e as atitudes polêmicas adotadas pelo então presidente custou-lhe muito caro, além de render-lhe adjetivos como o de exibicionistas, traidor, covarde, etc. Também se faz necessário perceber que em 1961 as bases do golpe militar que seria aplicado em de 1964, já estavam sendo articuladas e isto ficou bem visível quando os militares queriam impedir a posse de João Goulart, vice de Jânio Quadros, pelo fato do mesmo ter características de cunho nacionalista e populista.
Sendo assim, ficamos por aqui.
Um forte abraço!