sexta-feira, 10 de junho de 2011

OS VALORES BURGUESES DA RENASCENÇA: entre o medieval e o moderno

O Casal Arnolfini


Produzida em 1434, pelo pintor flamengo Jan Van Eyck, “O casamento de Giovanni Arnolfini e Giovanna Cenami” é uma das obras renascentistas de maior expressão e de conhecimento do público. Repleta de elementos simbólicos, a tela revela uma série de valores vivenciados pela sociedade européia, que à luz daquele período, passava por profundas transformações inerentes ao processo de transição da mentalidade medieval para a moderna. Dividido pelo pensamento teocêntrico e supersticioso, oriundo dos vários séculos de predominância do cristianismo católico medieval e a racionalidade humanística, o homem moderno vivenciava conflituosamente este processo de transição da História.
Na Idade Média, por exemplo, as imagens exerciam uma função formativa de caráter religioso, ou seja, o objetivo era ilustrar aos fiéis questões ligadas a cristandade, à salvação ou a condenação, ou ainda ao plano divino, e se levarmos em consideração que a maioria das pessoas do período eram analfabetas, perceberemos então a importância do recurso imagético e seus simbolismos naquele tempo. Já o movimento renascentista procurava consolidar uma nova visão de mundo, na qual o aspecto divino, embora não tenha sido totalmente suplantado, perdeu consideralvel espaço para o humano. Podemos bem ilustrar isto através das obras da época.
Sendo assim, a tela proposta para essa postagem nos fornece uma clara noção dos valores cultivados pela sociedade européia em seu exato momento de produção, o Renascimento. Dessa forma, vamos a leitura da imagem:
Os primeiros aspectos que podemos destacar e refletir refere-se à qualidade das roupas, a maneira rica de se vestir de Giovanni e Giovanna, além disso, se repararmos bem nos objetos que compõem a cena, no caso, o quarto do casal, perceberemos que os mesmos são de boa qualidade e consequentemente caros. Nestes dois pontos ressaltados residem uma questão chave para uma boa leitura: trata-se de uma família burguesa do século XV.
Procurando retratar um momento importante das suas vidas, o casal buscou registrar o matrimônio e o nascimento de uma família. A união matrimonial está representada no ato de dar as mãos e o nascimento familiar, encontra-se simbolicamente incutido no fato da moça está grávida. Um aspecto curioso ai, é o fato da grande possibilidade de Giovanna não ter engravidado, assim demonstram os estudos realizados acerca do casal. Outro ponto curioso fica por conta do vestido verde da moça, verde é a cor da fertilidade.
Tratando-se de um casamento, o princípio da fidelidade é um dos principais a serem respeitado pelo casal, e ele aparece na cena, simbolizado na figura de um cão, considerado o melhor amigo do homem e sempre fiel ao seu dono. Os lençóis que revestem a cama são de cor vermelha, a cor da paixão, ressaltando o amor compartilhado entre os cônjugues .
Podemos ainda apresentar mais elementos presentes na cena e que estão intimamente ligados a religiosidade como a presença de um terço, bem ao lado do espelho. Além disso, as figuras que decoram o espelho, em formato de círculo, são representações dos passos de Jesus Cristo, que acabam por nos remeter à devoção do casal. No candelabro só tem uma vela acesa, ela simboliza o olhar de Deus, que ilumina e abençoa o lar e nova família que nascera.
Por fim, outro detalhe da cena merece a nossa atenção é fato de Giovanna está mais próxima da cama, enquanto que Giovanni está mais próximo da porta. Esta simples disposição dos personagens, revela-nos um forte aspecto cultural da época, aonde os homens tinham uma vida mais voltada para o mundo externo, como o trabalho por exemplo, e as mulheres procuravam exercer bem o seu papel de cuidar do lar, dos filhos e do marido.
Destacados e devidamente interpretados cada um dos elementos da imagem proposta, podemos concluir que, embora a ideia de ruptura com o que era de natureza medieval esteve bastante presente entre os renascentistas, o homem moderno carregava consigo diversos valores que facilmente podem ser associados a Idade Média, como por exemplo, a valorização do matrimônio, um dos sete sacramentos da Igreja Católica, e da vida religiosa representada pelos elementos presentes na cena aqui já destacados.
A tela de Jan Van Eyck é uma fonte histórica extremamente rica e ao desvendar seus símbolos, nos fornecerá dados valiosíssimos ligados ao Renascimento, proporcionando-nos boas discussões a serem realizadas em sala de aula.  
Chegamos ao fim de mais uma postagem.
Saudações históricas!



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