segunda-feira, 27 de junho de 2016

O CAFÉ COM LEITE DA VELHA POLÍTICA BRASILEIRA

Capa da Revista CARETA, publicada em 27 de agosto de 1925
Em 1925 o cenário político brasileiro estava bastante aquecido, pois desde a sua implantação em 1889, a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil enfrentara uma série de problemas de ordem econômica, política e social. Com certeza nas inúmeras discussões ocorridas em 25, o conchavo político entre paulistas e mineiros, ocupavam lugar especial e a prova disso é a charge presente na Revista Careta publicada no dia 27 de agosto daquele ano.
Produzida pelo caricaturista Storni, a charge acima, tornou-se “figurinha carimbada” em muitos livros didáticos de História (Ens. Fundamental e Médio) e em muitos slides de professores, quando o assunto abordado é a conhecida Política Café com Leite, período de domínio político das oligarquias dos Estados de São Paulo e Minas Gerais que detiveram juntas, mais da metade dos presidentes da República Velha (1889-1930). Contudo passemos a observação mais atentada da charge:

Aspecto 1 – A POLTRONA PRESIDENCIAL ocupa o lugar mais alto e central da cena fazendo uma alusão ao poder máximo, o de chefe da nação, o cargo de presidente da República. O acento presidencial está sobre um monte que lembra o Pão de Açúcar, permitindo-nos fazer uma relação com o Rio de Janeiro, a capital do Brasil naquela época. Repare também que no encosto na mesma está escrito “Presidência da República”, o que facilita nossa compreensão.

Aspecto 2 – DOIS FAZENDEIROS, se preferir, CORONÉIS estão distribuídos de maneira a nos dar a sensação de que são donos, vigias e/ou guardiões da poltrona presidencial. Estes dois personagens, assim como insinuam os escritos em seus respectivos chapéus, representam os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Na cena os dois coronéis protegem o acento evitando que os demais (parte baixo) cheguem até a mesma, numa representação perfeita da política Café com Leite, que através de acordos políticos cuidavam para que candidatos à presidência pelo PRP (Partido Republicano Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro), fossem eleitos sucessivamente. Na verdade o sucesso desta aliança estava pautado em dois fatores, o primeiro consistia no fato de São Paulo e Minas possuírem os maiores colégios eleitorais do Brasil, ou seja, juntos detinham uma quantidade de eleitores com potencial para praticamente decidir o processo eleitoral, já o segundo fator, residia nas respectivas economias, São Paulo era o maior produtor de café do Brasil, Minas o segundo maior produtor de café e tradicionalmente, um grande produtor de leite, no qual deu origem ao nome deste “acordão político”.   Existem outras versões para o nome Café com Leite, mas isto é secundário, uma vez que devemos reconhecer o êxito desta política para ambos os Estados, fruto de uma combinação perfeita.  Procurando ilustrar esse domínio, segue a lista dos presidentes paulistas e mineiros durante a Primeira República: 1894 – 1898: Prudente de Morais (Paulista) / 1898 – 1902: Campos Sales (Paulista) / 1902 – 1906: Rodrigues Alves (Paulista) / 1906 – 1909: Afonso Pena (Mineiro) / 1914 – 1918: Wenceslau Brás (Mineiro) / 1918 – 1919: Delfim Moreira (Mineiro) / 1922 – 1926: Arthur Bernardes (Mineiro). (Confira a lista completa aqui)

Aspecto 3 – NA PARTE INFERIOR do monte, percebe-se um grande número de CORONÉIS que procuram alcançar a poltrona presidencial, mas o esforço é em vão. Estes coronéis representam os demais estados do Brasil (escritos nos chapéus) que não conseguiam chegar ao cargo da presidência, fazendo praticamente do Brasil, uma República de hegemonia bipartidária, o que nos remete, de maneira até um pouco grosseira, a uma coincidência com a nação inspiradora do primeiro modelo de República do Brasil, os Estados Unidos (hegemonia dos partidos Democratas e Republicanos).

Aspecto 4 – Para complementar a cena que fala por si só, há uma legenda com o seguinte dizer: A FORMA DEMOCRÁTICA – Os detentores: tenham paciência, mais aqui não sobe mais ninguém! Este detalhe destacado, nos remete não somente ao domínio paulista e mineiro sobre a política e a economia do Brasil daquele período, mas a um sistema republicano manco, falho ou como preferem os historiadores, velho, incapaz de atender aos interesses políticos e sociais dos demais Estados da federação.

Aspecto 5 – Cabe ainda registrar mais um último detalhe, este importantíssimo, A AUSÊNCIA DO POVO. Ora se a palavra República, significa “coisa do povo”, aonde está a população? Qual era o seu papel diante dessa configuração política? A República foi implantada através do discurso de que todo homem se tornaria cidadão, mas na prática, condições foram impostas aos votantes, como por exemplo, ser alfabetizado, excluindo uma grande quantidade de pessoas da possibilidade do exercício direto da cidadania. Os poucos que conseguiram o direito do voto eram fisgados pela rede dos viciados conchavos do sistema político brasileiro alimentados pela Política dos Governadores e do Coronelismo. Dessa forma, o que sai da urna não é nem de longe, o resultado do interesse popular, mas das oligarquias dominantes que se perpetuavam no poder.



terça-feira, 7 de junho de 2016

TIRADENTES: A CONSTRUÇÃO DE PEDRO AMÉRICO

Tiradentes esquartejado. Óleo sobre tela de Pedro Américo, 1893

Aos 20 dias do mês de abril do ano de 1792, no Rio de Janeiro, capital da América portuguesa, eram publicadas as condenações a respeito dos inconfidentes mineiros. Uma delas em especial merece relevância, a de Tiradentes, como podemos observar a seguir:

(...) condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, (...) a que (...) seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada à Vila Rica, aonde no lugar mais público dela será pregada em um poste alto até que o tempo a consuma; o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes pelo caminho de Minas (...) aonde o réu teve as suas infames práticas (...) até que o tempo também os consuma. Declaram ao réu infame, e infame seus filhos e netos.
Autos da devassa da Inconfidência Mineira, citado por Silvia H. Lara. Em: Obra citada. p. 19

A condenação de Tiradentes produziu um dos mais famosos episódios da nossa História e uma das mais icônicas imagens, “TIRADENTES ESQUARTEJADO” produzida pelo pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905), no ano de 1893. Dada a relevância da obra, presente em praticamente todos os livros didáticos, passaremos então a analisar seus detalhes e a simbologia que há por trás da cena criada:
O primeiro fator que nos chama a atenção é que o autor fez questão de manter as partes do corpo do condenado Tiradentes, reunidas em uma mesma cena. Percebam que a disposição de suas partes, nos faz lembrar do formato do mapa do Brasil, nos inclinando a associar a cena à História do Brasil, ou justificando à causa do “mártir” como nacional. Na verdade sabemos que a luta de Tiradentes foi regional, o que nos leva a afirmar que a cena não passa de uma construção ideológica, uma vez que as partes teriam sido espalhadas como foi explanada no trecho acima referente à condenação do inconfidente. O segundo ponto a observar é a aparência do condenado com Jesus Cristo, o Salvador, aquele quem lutou pela Liberdade dos pecadores contra a opressão do mal, ou seja, a causa do inconfidente também era a Liberdade, sua luta era contra a tirania opressora da Coroa portuguesa. Percebam que a forca não tem um destaque na cena, o que sobressai é o crucifixo ao lado da cabeça de Tiradentes, a sua presença é um dos fatores que nos permite fazer a associação agora relatada. Outro aspecto é o fato de Tiradentes está cabeludo e barbudo, não entrarei aqui na discussão da imagem real do mesmo, o que temos que levar em consideração é o fato de que tradicionalmente os prisioneiros e condenados à forca eram conduzidos à mesma, vestidos em um “camisolão” branco e com cabelos e barbas devidamente raspados.
O braço desfalecido de Tiradentes faz alusão ao braço desfalecido de Marat, líder revolucionário francês assassinado em 1793 e que também teve a sua morte pintada, construída, pelo pintor neoclassicista francês Jacques Louis David. Observe abaixo a tela citada “A morte de Marat”.

A morte de Marat. Óleo sobre tela de Jacques-Louis David, 1793.
Você deve está se perguntando, qual seria a relação entre a Revolução Francesa (1789) e a Inconfidência Mineira (1789)? Grosseiramente, eu diria que na prática não há relação direta, mas aqui precisamos nos atentar para o período em que a obra “Tiradentes esquartejado” foi pintada, 1893, são pouco mais de cem anos que separam a execução do inconfidente mineiro e a construção da cena que analisamos. Em 1893, o Brasil não era mais uma nação monárquica, mas uma República, recentemente implantada pelo exército brasileiro e este processo de implantação, bebeu aos largos goles do positivismo francês e de alguns princípios norteadores da revolução francesa. Sendo assim, é inegável a carga cultural que Pedro Américo sofrera deste contexto histórico transferindo-a para sua obra.
No início do período republicano (1889-1930) o governo brasileiro procurava se desfazer de tudo aquilo que remetia ao passado monárquico, era hora de ter seus próprios heróis em detrimento das figuras portuguesas que predominaram até então na história política do Brasil (Pedro Álvares Cabral, Tomé de Souza, D. João VI, D. Pedro I, etc.). Tiradentes, por ser militar, por morar na importante região das Minas e dentre outros fatores, foi especialmente pinçado da História, saindo da condição de vilão, traidor, condenado ao esquecimento, para se tornar uma das principais figuras da nossa história. Sua imagem construída foi amplamente divulgada construindo no imaginário popular a figura mítica de um herói nacional merecedor de constantes homenagens como nome de cidade, de ruas, feriado nacional 21 de Abril, o seu rosto está gravado no anverso, popularmente conhecido como “coroa” da moeda de 5 centavos e demais exaltações.

Grande abraço e até a próxima postagem!



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O EUROCENTRISMO em uma única imagem


Folha de rosto do Atlas Theatrum Orbis Terrarum.

O século XVI é tido por muitos como o sinônimo da consolidação das mais diversas transformações ocorridas na sociedade europeia desde o fim do período medieval, sejam elas no âmbito social, econômico, político ou cultural. A Folha de rosto do atlas Theatrum Orbis Terrarum, que trago para esta postagem, atlas este produzido por Abraham Ortelius em 1570 revela-nos aspectos extremamente interessantes ligados à concepção europeia que se tinha naquela época em relação aos continentes. Na verdade, o tal atlas é um documento oficial, uma vez que Ortelius era cosmógrafo de Felipe II (Espanha).
Carregada de uma visão EUROCENTRICA, a imagem proposta merece uma análise minuciosa que pretende perpassar pela simbologia contida em cada um dos elementos presentes e para isso, tomamos por base as observações feitas por dois historiadores em especial, são eles: Gustavo Celso de Magalhães e Miriam Hermeto.
A página de rosto da obra de Abraham Ortelius, cosmógrafo de Felipe II (Espanha), publicada em 1570, representa uma visão sobre os quatro continentes conhecidos. No alto, está a Europa como verdadeira filha de Deus. As figuras laterais representam a Ásia e a África e, em posição diametral oposta à Europa, está a América. Ao seu lado, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
A EUROPA é apresentada como uma mulher, acima de todos da cena e com uma a coroa e um cetro de comando do mundo, ela está ricamente ornamentada; ao seu lado estão dois globos sinalizando que ela é o centro do mundo (concepção essencial do eurocentrismo). A ÁSIA é apresentada também através de uma figura feminina (de pé ao lado esquerdo da cena) vestida, mas não com a mesma indumentária europeia. A mulher (Ásia) carrega em sua mão um pequeno vaso (dourado) sinalizando o seu ouro e as especiarias que produzia, no caso ilustrado, o incenso, percebido por meio da fumaça que sai do mesmo vaso. Já a figura feminina que representa a ÁFRICA (de pé ao lado direito) aparece minimamente vestida e negra (embora nem todos os habitantes da África sejam negros e os europeus dessa época já soubessem disso), tem em uma das mãos um galho como se seus habitantes ainda vivessem basicamente daquilo que a natureza oferece e/ou porque produziam especiarias que interessavam aos europeus. A AMÉRICA (mulher no extremo inferior da cena) aparece totalmente nua e semideitada, como se seus habitantes não fossem muito afeitos ao trabalho (“preguiçosos”), e bastante atrasados e selvagens por ainda não utilizarem roupas (isso é uma generalização, pois os europeus conheceram povos nativos na América que usavam roupas); ela tem nas mãos uma cabeça de uma pessoa, mostrando que entre os habitantes reinava a barbárie e violência e que viviam guerreando, como indicam as flechas. Ao lado da América, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
Enfim, a disposição das personagens que compõem a cena (o fato dos continentes estarem abaixo da Europa e em uma construção comandada pela Europa) a representação traz a noção de que todos os outros continentes eram habitados por povos inferiores, que deveriam ser conquistados e cristianizados. Ainda podemos dizer que, a imagem é tradução perfeita do tal EUROCENTRISMO, aspecto extremamente polêmico e que foi durante muitos anos e ainda é, muitas vezes, predominante na historiografia ocidental, acobertando verdades históricas, apagando da História grandes personagens e “furtando” méritos de outros povos em favor dos europeus.

Ficamos por aqui, um forte abraço e até a próxima!