quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O EUROCENTRISMO em uma única imagem


Folha de rosto do Atlas Theatrum Orbis Terrarum.

O século XVI é tido por muitos como o sinônimo da consolidação das mais diversas transformações ocorridas na sociedade europeia desde o fim do período medieval, sejam elas no âmbito social, econômico, político ou cultural. A Folha de rosto do atlas Theatrum Orbis Terrarum, que trago para esta postagem, atlas este produzido por Abraham Ortelius em 1570 revela-nos aspectos extremamente interessantes ligados à concepção europeia que se tinha naquela época em relação aos continentes. Na verdade, o tal atlas é um documento oficial, uma vez que Ortelius era cosmógrafo de Felipe II (Espanha).
Carregada de uma visão EUROCENTRICA, a imagem proposta merece uma análise minuciosa que pretende perpassar pela simbologia contida em cada um dos elementos presentes e para isso, tomamos por base as observações feitas por dois historiadores em especial, são eles: Gustavo Celso de Magalhães e Miriam Hermeto.
A página de rosto da obra de Abraham Ortelius, cosmógrafo de Felipe II (Espanha), publicada em 1570, representa uma visão sobre os quatro continentes conhecidos. No alto, está a Europa como verdadeira filha de Deus. As figuras laterais representam a Ásia e a África e, em posição diametral oposta à Europa, está a América. Ao seu lado, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
A EUROPA é apresentada como uma mulher, acima de todos da cena e com uma a coroa e um cetro de comando do mundo, ela está ricamente ornamentada; ao seu lado estão dois globos sinalizando que ela é o centro do mundo (concepção essencial do eurocentrismo). A ÁSIA é apresentada também através de uma figura feminina (de pé ao lado esquerdo da cena) vestida, mas não com a mesma indumentária europeia. A mulher (Ásia) carrega em sua mão um pequeno vaso (dourado) sinalizando o seu ouro e as especiarias que produzia, no caso ilustrado, o incenso, percebido por meio da fumaça que sai do mesmo vaso. Já a figura feminina que representa a ÁFRICA (de pé ao lado direito) aparece minimamente vestida e negra (embora nem todos os habitantes da África sejam negros e os europeus dessa época já soubessem disso), tem em uma das mãos um galho como se seus habitantes ainda vivessem basicamente daquilo que a natureza oferece e/ou porque produziam especiarias que interessavam aos europeus. A AMÉRICA (mulher no extremo inferior da cena) aparece totalmente nua e semideitada, como se seus habitantes não fossem muito afeitos ao trabalho (“preguiçosos”), e bastante atrasados e selvagens por ainda não utilizarem roupas (isso é uma generalização, pois os europeus conheceram povos nativos na América que usavam roupas); ela tem nas mãos uma cabeça de uma pessoa, mostrando que entre os habitantes reinava a barbárie e violência e que viviam guerreando, como indicam as flechas. Ao lado da América, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
Enfim, a disposição das personagens que compõem a cena (o fato dos continentes estarem abaixo da Europa e em uma construção comandada pela Europa) a representação traz a noção de que todos os outros continentes eram habitados por povos inferiores, que deveriam ser conquistados e cristianizados. Ainda podemos dizer que, a imagem é tradução perfeita do tal EUROCENTRISMO, aspecto extremamente polêmico e que foi durante muitos anos e ainda é, muitas vezes, predominante na historiografia ocidental, acobertando verdades históricas, apagando da História grandes personagens e “furtando” méritos de outros povos em favor dos europeus.

Ficamos por aqui, um forte abraço e até a próxima! 




sábado, 30 de junho de 2012

A GANSA DA INDEPENDÊNCIA

Autor desconhecido. 1776. Coleção particular


Olá pessoal! É com imensa satisfação que retornamos às atividades do blog HISTÓRIA POR IMAGEM e para a nossa primeira postagem trago uma imagem relacionada ao processo de independência dos Estados Unidos.
A imagem é de autoria desconhecida, mas pelo ano de sua produção (1776) e pelo conteúdo expresso na mesma, podemos tranquilamente associá-la à crise vivenciada entre o Império Britânico e as suas treze colônias americanas. Além da autoria desconhecida, há ainda uma divergência quanto ao título dado para esta obra, uns a chamam de “O Ganso de Ouro”, outros de “A Gansa dos Ovos de Ouro”, particularmente prefiro o segundo título, já que a relação entre Gansa e Ovos é mais bem lógica. rsrsrs
Dessa forma, vamos a nossa análise:
Na parte direita da imagem vemos UM HOMEM COM UMA ESPADA EMPUNHADA, pronto para abater a gansa que está sobre a mesa. Pelos trajes do homem citado, percebemos que trata-se de um soldado (britânico). Ao redor da mesa e consequentemente da gansa, observa-se um grupo de homens, muito bem trajados, que assistem de forma “alheia” a tudo o que acontece.
Contextualizando a imagem com o evento histórico no qual a obra se refere, deduz-se que os HOMENS RETRATADOS SÃO BRITÂNICOS e pelas vestes que usam nos permite afirmar que  são integrantes da nobreza, ou seja, são na verdade ministros do governo britânico. Outro aspecto que merece nossa atenção é que a postura de assistir pode ser relacionada a omissão, ao descaso, à passividade, ou ainda, à desvalorização daquilo que está se perdendo. Para bem entendermos a mensagem que o autor procura passar é necessário conceber a GANSA como às treze colônias inglesas da América e o CESTO REPLETO DE OVOS, carregado por um dos ministros britânicos, que aliás o faz com um sorriso estampado no rosto, representa as riquezas que as colônias concediam ao Império Britânico. A riqueza citada não está expressa apenas no cesto repleto de ovos, repare na gordura (fartura) dos dois ministros que se colocam ao lado esquerdo da obra.
Saindo da cena principal, outros dois elementos da cena chamam nossa atenção. O primeiro deles é o quadro com um LEÃO ADORMECIDO (na parte superior – centro), repare que UM FEIXE DE LUZ vindo do alto recai sobre o leão que não expressa nenhum tipo de incomodo. O leão é o símbolo da Grã-Bretanha e é exatamente isto que ele representa no quadro, já o feixe de luz são as ideias liberais (iluministas) que são ignoradas pelo governo britânico quando o assunto é as treze colônias. O segundo aspecto seria o CACHORRO URINANDO SOBRE O MAPA DA AMÉRICA, o que conota uma condição de total descaso e/ou desdém dos britânicos para os colonos americanos e sua causa.
Se juntarmos todos os elementos da cena apresentados e analisados até aqui, poderemos chegar a conclusão que o autor faz uma crítica profunda ao governo britânico e até procura despertar a fúria dos colonos em relação a este mesmo governo. A crítica citada exprime a "estupidez" do governo do rei George III (Jorge III) que agindo de forma antiliberal, aperta ainda mais a exploração das colônias através da cobrança de impostos, interferindo de forma pesada nos rumos da economia colonial. Na verdade, a crítica mais acentuada fica no ato de matar aquilo que é rentável, lucrativo, ou seja, a gansa (as 13 colônias americanas) o que logicamente seria um ato insano, mas vale ainda ressaltar que agir dessa forma não era anormal, já que a função básica de toda e qualquer colônia é de enriquecer a sua metrópole. Neste caso, em especial, o arrocho da exploração por parte do governo britânico em relação aos colonos americanos foi a gota d’água para por um fim na então relação pacífica entre as treze colônias inglesas da América e a Grã Bretanha resultando num sangrento processo de independência.
Bom... Vamos ficando por aqui e até uma próxima postagem!
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Forte abraço e saudações históricas!


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

VOTO DE CABRESTO: o coronel, o eleitor e a soberania



As três primeiras décadas do século XX foram marcadas pelo esforço do governo brasileiro numa tentativa de consolidar o sistema republicano recém-instalado. A monarquia era coisa do passado e concebida pelos integrantes do movimento republicano, antes mesmo da sua queda, como um sistema ultrapassado de governo e que, até então, impedira o Brasil de alcançar o progresso. Dessa forma, a “Coisa do Povo”, significado do termo latim res publica, implantada como sistema político em 15 de novembro de 1889, aparentemente traria grandes avanços para a população brasileira daquele período no que se refere aos direitos políticos.

Segundo o historiador Alfredo Boulos Júnior, “(...) na época do Império, era preciso ter uma renda mínima para votar; em outras palavras, o voto era censitário. Isso restringia o número de pessoas aptas a votar. A constituição republicana de 1891, no entanto, aboliu o voto censitário. O eleitor deveria ser alfabetizado e mulheres, monges, frades e soldados não votavam. Porém, ainda que a exclusão do direito ao voto continuasse grande, o número de eleitores cresceu bastante.” (História: Sociedade & Cidadania. p.60)

Embora houvesse de fato o aumento do número de eleitores, o resultado obtido nas urnas estava muito longe de expressar a vontade real dos votantes, ou seja, as urnas apuradas Brasil afora, sobretudo nas zonas rurais, e vale lembrar que aproximadamente 70% da população brasileira em 1920 morava na zona rural, explicitava o domínio político exercido pelos coronéis nessas regiões.

A charge acima proposta é do gaúcho Alfredo Storni e foi publicada em 1927 satirizando o então “voto de cabresto”. Os elementos dispostos na cena nos proporcionam informações preciosas para uma análise crítica acerca da ação e da manipulação dos coronéis nas eleições na primeira república brasileira. Diante do exposto até aqui, passaremos a análise da charge:

Do lado esquerdo da cena aparece uma mulher com um vestido e com uma expressão de desapontamento, decepção ou tristeza. Repare que logo abaixo do vestido está escrito SOBERANIA, sendo assim, subtende-se que o termo soberania, se atrelado a eleições diretas, ganha o sentido de “vontade, decisão ou a escolha do povo em sua totalidade ou maioria”. Neste quesito reside um aspecto curioso, pois a moça (soberania) encontra-se fora da urna (entre a moça, o político e o burro) demonstrando que os resultados que saíam de dentro das urnas não expressavam a real vontade do povo, mas sim das oligarquias regionais que acabavam forçando as pessoas que estavam sob os seus domínios, a votarem em determinados candidatos, daí talvez saia a justificativa da desapontada expressão presente no rosto da moça.

Do lado direito da urna estão dispostos um coronel (POLÍTICO) segurando um ELEITOR pela rédea, este representado com uma cabeça de burro e um cabresto (cabresto é um equipamento utilizado em animais de montaria como burros, jumentos, cavalos e que servem para orientar o animal segundo a vontade do montador). Nota-se a postura curvada do eleitor, submisso e cabisbaixo. Esta cena em si, simboliza exatamente o sentido da palavra cabresto, ou seja, o coronel conduzia seus subordinados a seção eleitoral obrigando-os a votar no candidato que estava atrelado ao seu interesse, seguindo a linha de raciocínio de que “o que fosse bom para o coronel, seria bom para seus dependentes”.

Outro aspecto interessante na cena é que o eleitor carrega consigo um livro ou uma caderneta transmitindo-nos a ideia de que ele é alfabetizado, já que esta era uma das condições exigidas pela constituição para se exercer o direito ao voto. Para finalizar, olhando a paisagem em que a cena se passa, chegaremos a conclusão de que os personagens estão na zona rural.

Contudo, o voto de cabresto perpetuou-se por muitos anos, garantindo a hegemonia política de determinados grupos oligárquicos brasileiros principalmente os de Minas Gerais e São Paulo. Este tipo de manipulação eleitoreira variou no tempo e se vacilar, ainda hoje encontraremos situações assemelhadas a este tipo de manipulação política, cabendo a nós instigarmos a nossa imaginação e analisar a fundo a jogatina política vivenciada nos dias atuais. Para não me alongar mais, citarei um exemplo:

Será que o fato de algumas emissoras de TV, revistas, jornais, sites, dentre outras fontes midiáticas, serem tendenciosas a determinadas ideologias políticas, não acabam sendo decisivas no que diz respeito a escolha de um candidato num processo eleitoral? E sendo dessa forma, a soberania popular não ficaria mais uma vez de fora das urnas? Será que os eleitores diante dos discursos difundidos não acabam sendo conduzidos mais uma vez pelos “coronéis” da atualidade como se utilizassem “cabrestos”?

É uma boa discussão...

Valeu pessoal, um abraço forte e até a próxima postagem.