terça-feira, 7 de junho de 2016

TIRADENTES: A CONSTRUÇÃO DE PEDRO AMÉRICO

Tiradentes esquartejado. Óleo sobre tela de Pedro Américo, 1893

Aos 20 dias do mês de abril do ano de 1792, no Rio de Janeiro, capital da América portuguesa, eram publicadas as condenações a respeito dos inconfidentes mineiros. Uma delas em especial merece relevância, a de Tiradentes, como podemos observar a seguir:

(...) condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, (...) a que (...) seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada à Vila Rica, aonde no lugar mais público dela será pregada em um poste alto até que o tempo a consuma; o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregado em postes pelo caminho de Minas (...) aonde o réu teve as suas infames práticas (...) até que o tempo também os consuma. Declaram ao réu infame, e infame seus filhos e netos.
Autos da devassa da Inconfidência Mineira, citado por Silvia H. Lara. Em: Obra citada. p. 19

A condenação de Tiradentes produziu um dos mais famosos episódios da nossa História e uma das mais icônicas imagens, “TIRADENTES ESQUARTEJADO” produzida pelo pintor paraibano Pedro Américo (1843-1905), no ano de 1893. Dada a relevância da obra, presente em praticamente todos os livros didáticos, passaremos então a analisar seus detalhes e a simbologia que há por trás da cena criada:
O primeiro fator que nos chama a atenção é que o autor fez questão de manter as partes do corpo do condenado Tiradentes, reunidas em uma mesma cena. Percebam que a disposição de suas partes, nos faz lembrar do formato do mapa do Brasil, nos inclinando a associar a cena à História do Brasil, ou justificando à causa do “mártir” como nacional. Na verdade sabemos que a luta de Tiradentes foi regional, o que nos leva a afirmar que a cena não passa de uma construção ideológica, uma vez que as partes teriam sido espalhadas como foi explanada no trecho acima referente à condenação do inconfidente. O segundo ponto a observar é a aparência do condenado com Jesus Cristo, o Salvador, aquele quem lutou pela Liberdade dos pecadores contra a opressão do mal, ou seja, a causa do inconfidente também era a Liberdade, sua luta era contra a tirania opressora da Coroa portuguesa. Percebam que a forca não tem um destaque na cena, o que sobressai é o crucifixo ao lado da cabeça de Tiradentes, a sua presença é um dos fatores que nos permite fazer a associação agora relatada. Outro aspecto é o fato de Tiradentes está cabeludo e barbudo, não entrarei aqui na discussão da imagem real do mesmo, o que temos que levar em consideração é o fato de que tradicionalmente os prisioneiros e condenados à forca eram conduzidos à mesma, vestidos em um “camisolão” branco e com cabelos e barbas devidamente raspados.
O braço desfalecido de Tiradentes faz alusão ao braço desfalecido de Marat, líder revolucionário francês assassinado em 1793 e que também teve a sua morte pintada, construída, pelo pintor neoclassicista francês Jacques Louis David. Observe abaixo a tela citada “A morte de Marat”.

A morte de Marat. Óleo sobre tela de Jacques-Louis David, 1793.
Você deve está se perguntando, qual seria a relação entre a Revolução Francesa (1789) e a Inconfidência Mineira (1789)? Grosseiramente, eu diria que na prática não há relação direta, mas aqui precisamos nos atentar para o período em que a obra “Tiradentes esquartejado” foi pintada, 1893, são pouco mais de cem anos que separam a execução do inconfidente mineiro e a construção da cena que analisamos. Em 1893, o Brasil não era mais uma nação monárquica, mas uma República, recentemente implantada pelo exército brasileiro e este processo de implantação, bebeu aos largos goles do positivismo francês e de alguns princípios norteadores da revolução francesa. Sendo assim, é inegável a carga cultural que Pedro Américo sofrera deste contexto histórico transferindo-a para sua obra.
No início do período republicano (1889-1930) o governo brasileiro procurava se desfazer de tudo aquilo que remetia ao passado monárquico, era hora de ter seus próprios heróis em detrimento das figuras portuguesas que predominaram até então na história política do Brasil (Pedro Álvares Cabral, Tomé de Souza, D. João VI, D. Pedro I, etc.). Tiradentes, por ser militar, por morar na importante região das Minas e dentre outros fatores, foi especialmente pinçado da História, saindo da condição de vilão, traidor, condenado ao esquecimento, para se tornar uma das principais figuras da nossa história. Sua imagem construída foi amplamente divulgada construindo no imaginário popular a figura mítica de um herói nacional merecedor de constantes homenagens como nome de cidade, de ruas, feriado nacional 21 de Abril, o seu rosto está gravado no anverso, popularmente conhecido como “coroa” da moeda de 5 centavos e demais exaltações.


Grande abraço e até a próxima postagem!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O EUROCENTRISMO em uma única imagem


Folha de rosto do Atlas Theatrum Orbis Terrarum.

O século XVI é tido por muitos como o sinônimo da consolidação das mais diversas transformações ocorridas na sociedade europeia desde o fim do período medieval, sejam elas no âmbito social, econômico, político ou cultural. A Folha de rosto do atlas Theatrum Orbis Terrarum, que trago para esta postagem, atlas este produzido por Abraham Ortelius em 1570 revela-nos aspectos extremamente interessantes ligados à concepção europeia que se tinha naquela época em relação aos continentes. Na verdade, o tal atlas é um documento oficial, uma vez que Ortelius era cosmógrafo de Felipe II (Espanha).
Carregada de uma visão EUROCENTRICA, a imagem proposta merece uma análise minuciosa que pretende perpassar pela simbologia contida em cada um dos elementos presentes e para isso, tomamos por base as observações feitas por dois historiadores em especial, são eles: Gustavo Celso de Magalhães e Miriam Hermeto.
A página de rosto da obra de Abraham Ortelius, cosmógrafo de Felipe II (Espanha), publicada em 1570, representa uma visão sobre os quatro continentes conhecidos. No alto, está a Europa como verdadeira filha de Deus. As figuras laterais representam a Ásia e a África e, em posição diametral oposta à Europa, está a América. Ao seu lado, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
A EUROPA é apresentada como uma mulher, acima de todos da cena e com uma a coroa e um cetro de comando do mundo, ela está ricamente ornamentada; ao seu lado estão dois globos sinalizando que ela é o centro do mundo (concepção essencial do eurocentrismo). A ÁSIA é apresentada também através de uma figura feminina (de pé ao lado esquerdo da cena) vestida, mas não com a mesma indumentária europeia. A mulher (Ásia) carrega em sua mão um pequeno vaso (dourado) sinalizando o seu ouro e as especiarias que produzia, no caso ilustrado, o incenso, percebido por meio da fumaça que sai do mesmo vaso. Já a figura feminina que representa a ÁFRICA (de pé ao lado direito) aparece minimamente vestida e negra (embora nem todos os habitantes da África sejam negros e os europeus dessa época já soubessem disso), tem em uma das mãos um galho como se seus habitantes ainda vivessem basicamente daquilo que a natureza oferece e/ou porque produziam especiarias que interessavam aos europeus. A AMÉRICA (mulher no extremo inferior da cena) aparece totalmente nua e semideitada, como se seus habitantes não fossem muito afeitos ao trabalho (“preguiçosos”), e bastante atrasados e selvagens por ainda não utilizarem roupas (isso é uma generalização, pois os europeus conheceram povos nativos na América que usavam roupas); ela tem nas mãos uma cabeça de uma pessoa, mostrando que entre os habitantes reinava a barbárie e violência e que viviam guerreando, como indicam as flechas. Ao lado da América, há um busto esculpido sugerindo a possibilidade de um outro continente ainda não conhecido (que seria a Oceania).
Enfim, a disposição das personagens que compõem a cena (o fato dos continentes estarem abaixo da Europa e em uma construção comandada pela Europa) a representação traz a noção de que todos os outros continentes eram habitados por povos inferiores, que deveriam ser conquistados e cristianizados. Ainda podemos dizer que, a imagem é tradução perfeita do tal EUROCENTRISMO, aspecto extremamente polêmico e que foi durante muitos anos e ainda é, muitas vezes, predominante na historiografia ocidental, acobertando verdades históricas, apagando da História grandes personagens e “furtando” méritos de outros povos em favor dos europeus.

Ficamos por aqui, um forte abraço e até a próxima! 




sábado, 30 de junho de 2012

A GANSA DA INDEPENDÊNCIA

Autor desconhecido. 1776. Coleção particular


Olá pessoal! É com imensa satisfação que retornamos às atividades do blog HISTÓRIA POR IMAGEM e para a nossa primeira postagem trago uma imagem relacionada ao processo de independência dos Estados Unidos.
A imagem é de autoria desconhecida, mas pelo ano de sua produção (1776) e pelo conteúdo expresso na mesma, podemos tranquilamente associá-la à crise vivenciada entre o Império Britânico e as suas treze colônias americanas. Além da autoria desconhecida, há ainda uma divergência quanto ao título dado para esta obra, uns a chamam de “O Ganso de Ouro”, outros de “A Gansa dos Ovos de Ouro”, particularmente prefiro o segundo título, já que a relação entre Gansa e Ovos é mais bem lógica. rsrsrs
Dessa forma, vamos a nossa análise:
Na parte direita da imagem vemos UM HOMEM COM UMA ESPADA EMPUNHADA, pronto para abater a gansa que está sobre a mesa. Pelos trajes do homem citado, percebemos que trata-se de um soldado (britânico). Ao redor da mesa e consequentemente da gansa, observa-se um grupo de homens, muito bem trajados, que assistem de forma “alheia” a tudo o que acontece.
Contextualizando a imagem com o evento histórico no qual a obra se refere, deduz-se que os HOMENS RETRATADOS SÃO BRITÂNICOS e pelas vestes que usam nos permite afirmar que  são integrantes da nobreza, ou seja, são na verdade ministros do governo britânico. Outro aspecto que merece nossa atenção é que a postura de assistir pode ser relacionada a omissão, ao descaso, à passividade, ou ainda, à desvalorização daquilo que está se perdendo. Para bem entendermos a mensagem que o autor procura passar é necessário conceber a GANSA como às treze colônias inglesas da América e o CESTO REPLETO DE OVOS, carregado por um dos ministros britânicos, que aliás o faz com um sorriso estampado no rosto, representa as riquezas que as colônias concediam ao Império Britânico. A riqueza citada não está expressa apenas no cesto repleto de ovos, repare na gordura (fartura) dos dois ministros que se colocam ao lado esquerdo da obra.
Saindo da cena principal, outros dois elementos da cena chamam nossa atenção. O primeiro deles é o quadro com um LEÃO ADORMECIDO (na parte superior – centro), repare que UM FEIXE DE LUZ vindo do alto recai sobre o leão que não expressa nenhum tipo de incomodo. O leão é o símbolo da Grã-Bretanha e é exatamente isto que ele representa no quadro, já o feixe de luz são as ideias liberais (iluministas) que são ignoradas pelo governo britânico quando o assunto é as treze colônias. O segundo aspecto seria o CACHORRO URINANDO SOBRE O MAPA DA AMÉRICA, o que conota uma condição de total descaso e/ou desdém dos britânicos para os colonos americanos e sua causa.
Se juntarmos todos os elementos da cena apresentados e analisados até aqui, poderemos chegar a conclusão que o autor faz uma crítica profunda ao governo britânico e até procura despertar a fúria dos colonos em relação a este mesmo governo. A crítica citada exprime a "estupidez" do governo do rei George III (Jorge III) que agindo de forma antiliberal, aperta ainda mais a exploração das colônias através da cobrança de impostos, interferindo de forma pesada nos rumos da economia colonial. Na verdade, a crítica mais acentuada fica no ato de matar aquilo que é rentável, lucrativo, ou seja, a gansa (as 13 colônias americanas) o que logicamente seria um ato insano, mas vale ainda ressaltar que agir dessa forma não era anormal, já que a função básica de toda e qualquer colônia é de enriquecer a sua metrópole. Neste caso, em especial, o arrocho da exploração por parte do governo britânico em relação aos colonos americanos foi a gota d’água para por um fim na então relação pacífica entre as treze colônias inglesas da América e a Grã Bretanha resultando num sangrento processo de independência.
Bom... Vamos ficando por aqui e até uma próxima postagem!
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Forte abraço e saudações históricas!