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Capa da Revista CARETA, publicada em 27 de agosto de 1925 |
Produzida pelo caricaturista
Storni, a charge acima, tornou-se “figurinha carimbada” em muitos livros
didáticos de História (Ens. Fundamental e Médio) e em muitos slides de
professores, quando o assunto abordado é a conhecida Política Café com Leite,
período de domínio político das oligarquias dos Estados de São Paulo e Minas
Gerais que detiveram juntas, mais da metade dos presidentes da República Velha
(1889-1930). Contudo passemos a observação mais atentada da charge:
Aspecto 1 – A POLTRONA
PRESIDENCIAL ocupa o lugar mais alto e central da cena fazendo uma alusão ao
poder máximo, o de chefe da nação, o cargo de presidente da República. O acento
presidencial está sobre um monte que lembra o Pão de Açúcar, permitindo-nos fazer
uma relação com o Rio de Janeiro, a capital do Brasil naquela época. Repare também
que no encosto na mesma está escrito “Presidência da República”, o que facilita
nossa compreensão.
Aspecto 2 – DOIS FAZENDEIROS, se
preferir, CORONÉIS estão distribuídos de maneira a nos dar a sensação de que
são donos, vigias e/ou guardiões da poltrona presidencial. Estes dois
personagens, assim como insinuam os escritos em seus respectivos chapéus,
representam os Estados de São Paulo e Minas Gerais. Na cena os dois coronéis
protegem o acento evitando que os demais (parte baixo) cheguem até a mesma,
numa representação perfeita da política Café com Leite, que através de acordos
políticos cuidavam para que candidatos à presidência pelo PRP (Partido Republicano
Paulista) e PRM (Partido Republicano Mineiro), fossem eleitos sucessivamente.
Na verdade o sucesso desta aliança estava pautado em dois fatores, o primeiro consistia
no fato de São Paulo e Minas possuírem os maiores colégios eleitorais do
Brasil, ou seja, juntos detinham uma quantidade de eleitores com potencial para
praticamente decidir o processo eleitoral, já o segundo fator, residia nas
respectivas economias, São Paulo era o maior produtor de café do Brasil, Minas
o segundo maior produtor de café e tradicionalmente, um grande produtor de leite,
no qual deu origem ao nome deste “acordão político”. Existem outras versões para o nome Café com
Leite, mas isto é secundário, uma vez que devemos reconhecer o êxito desta
política para ambos os Estados, fruto de uma combinação perfeita. Procurando ilustrar esse domínio, segue a
lista dos presidentes paulistas e mineiros durante a Primeira República: 1894 –
1898: Prudente de Morais (Paulista) / 1898 – 1902: Campos Sales (Paulista) / 1902
– 1906: Rodrigues Alves (Paulista) / 1906 – 1909: Afonso Pena (Mineiro) / 1914
– 1918: Wenceslau Brás (Mineiro) / 1918 – 1919: Delfim Moreira (Mineiro) / 1922
– 1926: Arthur Bernardes (Mineiro). (Confira a lista completa aqui)
Aspecto 3 – NA PARTE INFERIOR do
monte, percebe-se um grande número de CORONÉIS que procuram alcançar a poltrona
presidencial, mas o esforço é em vão. Estes coronéis representam os demais
estados do Brasil (escritos nos chapéus) que não conseguiam chegar ao cargo da
presidência, fazendo praticamente do Brasil, uma República de hegemonia bipartidária,
o que nos remete, de maneira até um pouco grosseira, a uma coincidência com a
nação inspiradora do primeiro modelo de República do Brasil, os Estados Unidos
(hegemonia dos partidos Democratas e Republicanos).
Aspecto 4 – Para complementar a
cena que fala por si só, há uma legenda com o seguinte dizer: A FORMA DEMOCRÁTICA – Os detentores: tenham
paciência, mais aqui não sobe mais ninguém! Este detalhe destacado, nos
remete não somente ao domínio paulista e mineiro sobre a política e a economia
do Brasil daquele período, mas a um sistema republicano manco, falho ou como
preferem os historiadores, velho, incapaz de atender aos interesses políticos e
sociais dos demais Estados da federação.
Aspecto 5 – Cabe ainda registrar
mais um último detalhe, este importantíssimo, A AUSÊNCIA DO POVO. Ora se a
palavra República, significa “coisa do povo”, aonde está a população? Qual era
o seu papel diante dessa configuração política? A República foi implantada
através do discurso de que todo homem se tornaria cidadão, mas na prática,
condições foram impostas aos votantes, como por exemplo, ser alfabetizado,
excluindo uma grande quantidade de pessoas da possibilidade do exercício direto
da cidadania. Os poucos que conseguiram o direito do voto eram fisgados pela
rede dos viciados conchavos do sistema político brasileiro alimentados pela
Política dos Governadores e do Coronelismo. Dessa forma, o que sai da urna não
é nem de longe, o resultado do interesse popular, mas das oligarquias
dominantes que se perpetuavam no poder.