quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O GRITO DO IPIRANGA: A independência criada por Pedro Américo

A tela "Independência ou Morte" também conhecida como "O Grito do Ipiranga"
do pintor brasileiro Pedro Américo. 
Se eu pedi a 10 pessoas para retratarem através de um desenho o momento da Independência do Brasil, tenho a absoluta convicção de que todas tentarão representar, copiar, ou recriar a tela “O Grito do Ipiranga” do pintor paraibano Pedro Américo.
A tela que ficou pronta em 1888, e segundo o historiador Alfredo Boulos Júnior “trata-se de uma pintura histórica encomendada pelo governo de D. Pedro II para exaltar D. Pedro I e rememorar o nascimento da nação e do Império Brasileiro.”
Bom, se esse era de fato o objetivo da encomenda, nem é preciso tecer comentários ou discutir se ela atingiu ou não o seu propósito.
Na realidade esta postagem tem por objetivo fazer uma análise crítica e simbólica desta imagem que é facilmente encontrada nos livros didáticos visando ilustrar o 7 de setembro de 1822. Para começarmos, é necessário clarificá-los de que Pedro Américo, embora tenha recorrido a pesquisas para saber de forma exata ou bem próxima disso, as condições geográficas e paisagísticas do riacho do Ipiranga, local do episódio conhecido como “O Grito do Ipiranga” (nome da obra), ou seja, aonde D. Pedro I teria bradado a famosa frase “Independência ou morte!”, o pintor recorreu sobretudo a sua imaginação para tentar recriar a histórica cena.
Pedro Américo dispôs harmoniosamente os personagens em sua tela, podemos até afirmar que artisticamente falando, “O Grito do Ipiranga” é uma obra magnífica. Para que se pudesse ganhar a conotação pretendida, foram necessárias algumas consideráveis alterações e/ou substituições, que pode até mesmo chegarem ao julgo de “grosseiras” se forem comparadas ao que teria de fato ocorrido naquele fim de tarde de 7 de Setembro de 1822.
O que ver-se ao centro da cena, é D. Pedro I de espada em punho, muito bem vestido e montando um vistoso cavalo como se estivesse preparado para enfrentar a possível ira portuguesa. Esta figura central (D. Pedro I) transpassa a sensação de poder, de herói, de liderança, repare que a cena gira em torno dele, e que todos os demais estão a contemplar àquele que se tornaria o primeiro imperador do Brasil. Pedro Américo procurou retratar a todos que acompanhavam D. Pedro, da mesma forma, em trajes esplendorosos e cavalos imponentes, até porque tratava-se dos soldados da Guarda Imperial que a repetir o gesto do regente, o de erguer as espadas, simbolizam o apoio ao mesmo na luta contra o domínio português. Estes dois aspectos observados na tela, destoam completamente do que fora a realidade. Segundo o Cientista político e historiador brasileiro José Murilo de Carvalho, em seu artigo intitulado de “Os esplendores da imortalidade”, em um quadro como esse:

“Dom Pedro não podia montar a besta gateada de que falam as testemunhas. O pedestre animal [...] teve o desgosto de ser substituído no quadro pela nobreza de um cavalo. Com maior razão, [...] o augusto moço não podia ser representado com os traços fisionômicos de quem sofria as incômodas cólicas de uma diarréia, [...] o motivo da parada da comitiva às margens do Ipiranga [...]. O uniforme da guarda de honra também foi alterado. A ocasião merecia trajes de gala, em vez do uniforme ‘pequeno’. [...] Pedro Américo atendendo a finalidade da encomenda, buscou construir a imagem de um herói guerreiro, criador de uma nação. [...]”
 
Complementando o raciocínio de Olavo de Carvalho, podemos afirmar que naquele período as mulas e jumentos eram os animais utilizados para as viagens de longas distâncias, por isso o mesmo levantou a hipótese de D. Pedro I e seus acompanhantes estarem em mulas ao invés de imponentes cavalos como é retratado na tela proposta. Outro aspecto intrigante, é que em 7 de setembro de 1822, nem sequer fora criada ainda a Guarda Imperial, o que se ver na tela, na realidade trata-se de grupos elitistas latifundiários e proprietários de escravos oriundos principalmente das províncias de Minas e São Paulo que prestavam apoio ao regente, em forma de milícia e não de um exército ou Guarda Imperial como é mostrado no quadro. Muito além de simplesmente querer ver o Brasil como uma nação independente, o apoio destes homens é oxigenado pelas pretensões políticas e a possibilidade das concessões de privilégios que poderiam obter a partir do nascimento desta nova nação, o Brasil.
Observa-se ainda, ao fundo da cena, uma casa, esta também fruto da imaginação de Pedro Américo, pois a mesma em 1822 não existia, sendo ela construída anos mais tarde, por volta de 1850, ficando ela eternizada pelo quadro e conhecida por todos como  “A Casa do Grito”.
No canto esquerdo da tela temos alguns trabalhadores que contemplam passivamente o episódio. Não sei ao certo a intenção do artista ao pintá-los, mas que podemos tranquilamente estabelecer uma relação destes com o povo brasileiro e seu papel no processo de independência do Brasil, isto sim, até porque a Independência do Brasil não foi um ato que contou com uma forte participação popular, mas sobretudo elitista.
Duas últimas curiosidades sobre a tela o “O Grito do Ipiranga”: a primeira delas é o tamanho da obra que mede 4,15 X 7,6m, suas dimensões parecem querer tornar grandioso o feito de D. Pedro I, já a segunda curiosade é o fato da mesma está relacionada à possibilidade de se tratar de um possível plágio da pintura de Ernest Meissonier, Batalha de Friedland, uma das batalhas enfrentadas por Napoleão Bonaparte e seu exército. Na época duras críticas foram feitas a Pedro Américo neste sentido. Bom, a respeito disto, deixo a tela de Ernest Meissonier para que você mesmo possa julgar se “O Grito do Ipiranga” é uma obra que pode ser considerada um caso de plágio ou não.
Batalha de Friedland. Obra de Ernest Meissonier.

Não se pode negar a semelhança entre ambas!


(Foto disponibilizada no blog "Aleks Palitot Trilhando a História")

Nesta foto tirada no Museu Paulista, aonde o quadro de Pedro Américo está exposto,
dá para se ter uma noção exata das dimensões do quadro "O Grito do Ipiranga".
 

Para finalizarmos, gostaria de dizer que para mim em especial não importa se D. Pedro estava montado num maravilhoso cavalo ou numa mula, se estava com diarréia ou não, se suas roupas não eram tão glamorosas quanto aparecem na tela de Pedro Américo e mesmo se o 7 de setembro de 1822 deveria ou não ser comemorado como a data oficial da Independência do Brasil, já que os últimos focos da resistência portuguesa caíram quase um ano após desta data, na província da Bahia, em 2 de julho de 1823. O que é válido nisso tudo, é o fato de que ali, à beira do Ipiranga, nascia digamos que de forma oficial, não o desejo, este já existia por parte de alguns, mas a disposição de enfrentar as consequências de uma possível separação de Portugal. Analisando bem estes 189 anos da emancipação política do Brasil podemos concluir ligeiramente que esta tal “luta pela independência” tem acontecido dia a dia, pois nos livramos de Portugal, mas não da fome, da desigualdade  e da corrupção tanto no campo político quanto no social,  mas sigo acreditando piamente que esta, a independência, esteja hoje mais próxima de ser alcançada, do que em 1822.
Bom galera, obrigado pela atenção destinada ao blog e deixo com vocês o Hino da Independência, que aliás é lindo e infelizmente pouca gente conhece.


Forte abraço e saudações históricas!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

HOLOCAUSTO: O poder do ódio aprendido

Crianças e mulheres judias vigiados por soldados nazistas no Gueto de Varsóvia, na Polônia.


A imagem acima refere-se a um dos desdobramentos mais terríveis da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e porque não dizer da História da humanidade, o Holocausto. A proposta aqui não é a análise desta fotografia em si, mas submetê-la à condição de ferramenta ilustrativa acerca desta temática.  
O Holocausto foi a matança indiscriminada (extermínio) não só de judeus como muitos pensam e até afirmam, mas de grupos indesejados pela política nazista criada por Adolf Hitler. É bem verdade que os judeus encabeçaram a lista dos mais perseguidos e consequentemente dos mortos, porém acompanhava-os diante da extensa lista nazista de perseguição os homossexuais, simpatizantes e militantes comunistas, ativistas políticos, alguns sacerdotes religiosos, ciganos, dentre outros.
O historiador Alfredo Boulos Júnior, descreve em seu texto - A “Solução Final”: Fábrica de Morte - o que de fato acontecia nestes campos de extermínio nazista. Então vamos lá!


A “SOLUÇÃO FINAL”: FÁBRICAS DE MORTE

Em 1942 os líderes nazistas decidiram que matariam todos os judeus em campos de extermínio especialmente construídos para essa finalidade. Era a chamada “solução final”.
Os campos de concentração, locais onde os nazistas faziam os prisioneiros trabalhar como escravos, já existiam na Alemanha há alguns anos, mas os campos de extermínio foram uma “novidade” introduzida em 1942. Dos países ocupados por Hitler, a Polônia era o que tinha o maior número de judeus, cerca de três milhões. Por isso, lá foram construídos os maiores campos de concentração, como Auschwitz, Teblinka e Sobibor.
Prisioneiros de toda a Europa eram levados para esses campos; os nazistas lhes diziam que estavam indo trabalhar para a Alemanha nazista. Na verdade, eles estavam sendo mandados para uma espécie de “matadouro humano”. A maioria dos prisioneiros era composta de judeus, mas além deles havia também um grande número de eslavos (russos, sérvios), ciganos, religiosos pacifistas (padres e pastores que pregavam contra a guerra e também testemunhas de Jeová, que se recusavam a prestar o serviço militar) e outros inimigos do nazismo.
Logo na entrada dos campos, os médicos nazistas separavam as pessoas em duas filas: uma delas era composta de velhos, doentes e crianças, mandados imediatamente para a morte nas câmaras de gás. Essas pessoas não sabiam que estavam sendo mandadas para as câmaras de gás, pois os carrascos nazistas diziam que a fila era para os prisioneiros tomarem banho de chuveiro. Esses médicos também esterilizavam prisioneiros e os usavam como cobaias em experiências.   

Ruínas da Câmara de Gás-Crematório II, em Auschwitz.
Só aqui morreram  cerca de 500.000 pessoas.
  
Os campos de extermínio eram autênticas “fábricas de morte”. Em Auschwitz eram mortas cerca de 6 mil pessoas por dia. Os prisioneiros eram vítimas das piores humilhações e maus-tratos: tinham a cabeça raspada e eram obrigados a andar nus ou em trapos (mesmo durante o gelado inverno europeu); as mulheres eram constantemente violentas pelos guardas, e as condições de higiene eram as piores possíveis (o que favorecia a disseminação de doenças). Antes de a guerra terminar, as notícias sobre o extermínio cometido nesses campos eram vistas como “exagero” ou “invenção” da propaganda dos Aliados. Mas com o fim da guerra vieram à tona muitos documentos, e não foi mais possível esconder o horror.



Prisioneiros eslavos que sobreviveram ao Holocausto.
Eles estavam no campo de concentração de Buchenwald.Repare no estado crítico das instalações e de saúde
em que estes homens se encontravam
no momento em que foram libertos.

Calcula-se que nesses campos foram mortos cerca de 6 milhões de judeus, 300 mil ciganos e centenas de milhares de soviéticos, homossexuais, deficientes físicos e religiosos. Quando terminou a guerra a maioria dos sobreviventes não tinha mais para onde ir. Muitos perderam a família inteira durante a guerra. Havia milhares de refugiados sem lar, pátria ou família, principalmente judeus, na Europa.

As pilhas de corpos dos judeus e demais reclusos se tornavam uma cena comum
nas áreas  dos campos de extermínio nazista revelando-os a crueldade
e o descaso com a vida humana proporcionada por Hitler e seus algozes.

Texto: Alfredo Boulos Júnior
Organização das ilustrações e legendas por Hermes Júnior


Para enriquecer a nossa postagem proponho o vídeo abaixo que foi feito em 1945 durante a libertação dos campos de Buchenwald e Dachau mostrando todo horror do genocídio nazista:



Gostaria também de deixar algumas sugestões de filmes que servem para se estudar ou se trabalhar em sala de aula acerca do tema:





Contudo, todos nós ficamos a nos perguntar: Como o ser humano foi capaz de praticar algo de tamanha crueldade? 
Procurando responder a minha indagação, encontrei num pensamento de Nelson Mandela a explicação perfeita para tudo o que ocorreu durante o Holocausto e é incrível como em contextos históricos distintos, este pensamento explica mais um triste evento da História do homem na Terra ( o Holocausto) de acordo com a dinâmica da lógica nazista:

"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem  ou ainda sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." 
(Nelson Mandela)

Ficamos por aqui,
Grande abraço!



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A GUERRA FRIA EM CHARGES

Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1945), instalara-se no mundo um embate ideológico bipolarizado, mais conhecido como Guerra Fria (1945-1989), aonde as duas maiores potências econômicas e bélicas do planeta, possuíam nas mãos o destino do planeta Terra e de toda a humanidade. De um lado, encontrava-se os Estados Unidos, que buscava a todo custo defender e propagar a ideologia capitalista e do outro a União Soviética, que por sua vez pregava o socialismo e de contrapartida não media esforços para combater e/ou opor a idéia defendida pelos capitalistas.
Esse clima de “tensão” perpetuou-se por mais de quatro décadas, aonde missões secretas, espionagens, sabotagens, ameaças políticas e militares, o crescimento bélico nuclear, dentre outras "peripécias", quase que levou a humanidade à tão temida Terceira Guerra Mundial. No período da Guerra Fria, diversos filmes, cartazes, charges, propagandas, dentre outros artifícios de comunicação propagavam e legitimavam a importância e por que não dizer, a possível “superioridade” ideológica da teoria (capitalista ou socialista) que se era pregada. Dentre os instrumentos de comunicação apresentados aqui, ficaremos com a charge, já que estas nos fornecem um riquíssimo simbolismo acerca do “clima de guerra” vivenciado naquele período da história.
Vejamos então as charges propostas e as suas devidas leituras:
Charge 1

Esta charge explicita bem o clima de disputa entre as duas potências EUA e URSS vivenciado na Guerra Fria. Do lado esquerdo (Ocidente) observa-se Harry Thruman, presidente dos Estados Unidos durante os anos de 1945 a 1953 e do lado direito (Oriente) encontra-se o líder soviético Josef Stalin, que esteve no comando da URSS entre os anos de 1922 a 1953. Uma partida de futebol travada entre os dois “cai como uma luva” no que diz respeito ao quesito ilustração, já que a bola (Terra) é o objeto de desejo de ambos que procuravam ampliar as suas devidas áreas de influência.

Charge 2



Esta charge foi publicada no Brasil, mais especificamente num jornal da cidade de São Paulo em 1946, que revelaria que o clima entre os blocos capitalista e socialista esquentaria bastante. Partindo mais uma vez da ideia de divisão (pólo) do mundo, podemos reparar que Harry Thruman está do lado esquerdo (ocidente) e Josef Stalin do lado direito (oriente). Observe que Thruman segura um esqueleto (símbolo da morte) com uma placa presa ao peito com os seguintes escritos: “Bomba Atômica”. Já Stalin, segura um fantasma com uma placa presa ao pescoço dizendo: “Bomba X”. Na realidade o fantasma aparenta ser o mesmo esqueleto segurado por Thruman coberto por um lençol, o que significa que a União Soviética em breve teria em seu poder bombas atômicas quebrando desta forma, o monopólio estadunidense e equilibrando o potencial bélico entre os dois países.

Charge 3

Nesta terceira charge, a ideia de divisão do mundo se faz presente mais uma vez. Do lado esquerdo (Ocidente) encontra-se os combatentes capitalistas e do lado direito (Oriente), os combatentes socialistas. Repare ao fundo de cada tropa, bombas atômicas com placas que dizem: “Não usar, por que o inimigo pode retaliar”. Aí reside um aspecto simbólico considerável, expressando que embora ambos os blocos sejam divergentes, existe o medo de um conflito atômico que “naquelas alturas do campeonato” traria consequências desastrosas a humanidade. Enquanto isso, os soldados combatem com arcos e flechas, nos dando a sensação de “leveza” ou de “cautela” talvez, que pode ser associado ao conflito ideológico: CAPITALISMO X SOCIALISMO.

Charge 4

Nesta quarta e última charge proposta, temos na esquerda o presidente soviético Nikita Kruschev (1953-1964), sucessor de Stalin e na direita encontramos John Kennedy (1961-1963), então presidente dos Estados Unidos. Repare como a disputa entre os dois blocos (Capitalista X Socialista) está representada através de uma quebra de braço. O ato de dar as mãos pode representar união, acordo, apoio, na realidade, faz-se aí uma alusão ou melhor, uma sátira a doutrina da “Coexistência Pacífica” proposta por Kruschev, aonde o mesmo propõe uma possível convivência pacífica entre os dois blocos. A impossibilidade dessa pacificidade é muito bem ilustrada na postura dos dois líderes que mantém o olhar firme um no outro, remetendo-nos a ideia de vigilância, mas que em contrapartida, meio que sorrateiramente mantém o dedo no botão que acionaria a bomba nuclear sob o inimigo, ato este que seria o suficiente para a eclosão da tão temida guerra.

Bom galerinha... sem sombra de dúvidas a Guerra Fria foi um dos períodos mais tensos da História, em contrapartida este mesmo período, deixou um valiosíssimo legado cultural no qual nós professores podemos utilizar para bem ilustrar e refletir em sala de aula acerca desse conteúdo. Hoje usei a charge, mas em outra oportunidade, voltarei a falar sobre Guerra Fria utilizando outras fontes também.
Aquele forte abraço e saudações históricas!!!!